22 julho, 2021


[Resenha] 1984 - George Orwell

Ficha Técnica 

Título: 1984
Título Original: Nineteen Eighty-Four
Autor: George Orwell
ISBN: 978-65-86490-16-9
Páginas: 256
Ano: 2021
Tradutor: Antônio Xerxenesky
Ilustrações: Rafael Coutinho
Editora: Antofágica
Em uma sociedade em constante estado de guerra contra outros países e contra os inimigos do sistema, cada cidadão deve viver sob a permanente vigilância das teletelas. Qualquer sinal de comportamento ou pensamento desviante da ideologia do Grande Irmão é severamente punido pela Polícia do Pensar.
Funcionário do Ministério da Verdade responsável por reescrever notícias e registros históricos, Winston Smith atua alterando o passado e, assim, o presente. Treinado para obedecer e calar, ele começa, no entanto, a questionar essa realidade. Seus atos de rebeldia contra o sistema, como ousar manter um caderno subversivo, parecem mínimos, até que ele se depara com a oportunidade de fazer algo maior e colocar sua vida em risco por uma sonhada mudança.
Publicado originalmente em 1949, este clássico de George Orwell é uma obra fundamental sobre opressão e totalitarismo e possibilita inúmeros paralelos com o momento que vivemos, 70 anos depois. A nova edição da Antofágica, além de contar com tradução de Antônio Xerxenesky, ilustrações de Rafael Coutinho e apresentação de Gregório Duvivier, também traz textos extras de Luiz Eduardo Soares, especialista em segurança pública, Débora Reis Tavares, estudiosa de Orwell, Ignácio Loyola Brandão, um dos principais autores contemporâneos e membro da Academia Brasileira de Letras e do jornalista Eduardo Bueno, criador do canal Buenas Ideias no Youtube.

Resenha


Há anos me perguntava sobre o fascínio que a obra 1984 despertava nos leitores. Eu conhecia a história superficialmente, mas até ler de fato não temos uma verdadeira noção do quanto esse livro nos impacta (se você leu e não parou diversas vezes para refletir ou se não te incomodou de alguma forma, me desculpe, mas leia novamente). 

Winston Smith, nosso protagonista,  vive em Londres, no país chamado Campo Aéreo Um, que antes da guerra era conhecido como Inglaterra. Ele tem trinta e nove anos, trabalha no Ministério da Verdade e acredita que está no ano de 1984. Bem, digo que ele acredita porque desde a guerra não é possível ter certeza de muitas coisas a respeito do passado e do presente. Então, como saber se realmente tem trinta e nove anos e se de fato está no ano de 1984?
A história parou. Nada existe além de um presente sem fim, no qual o Partido sempre tem razão.
Posição 45%
Após a Segunda Guerra, o Grande Irmão e o Partido surgiram e três grandes potências passaram a dominar o mundo: Oceania, Letásia e Eurásia. Desde então essas potências estão em constante guerra pelo poder supremo. Winston vive na Oceania, e seu trabalho no Miniver consiste em alterar os dados do passado de acordo com a orientação do Partido, alterações essas para garantir que o Partido nunca estivesse errado.

Os funcionários do Partido são constantemente vigiados pelas teletelas, que jamais são desligadas. É por meio delas que o Partido vigia a maior parte da população: o que fazem, quando fazem, suas expressões faciais. Assim, essas pessoas aprenderam a não expressar qualquer tipo de reação externamente. O que nos leva a pensar que o Partido controla tudo, menos os pensamentos. Mas será mesmo?
(…) o motivo mais importante para o reajuste do passado é a necessidade de proteger a infalibilidade do Partido.
Posição 63%
Ainda que o regime vivido na Oceania, o Ingsoc, tenha instituído o duplipensar, onde era possível manter dois pensamentos contrários e aceitá-los sem qualquer questionamento, e tantas outras regras, Winston ainda conseguia se lembrar do passado, do tempo antes do Partido assumir, antes da Novilíngua ser criada, antes das pessoas que eram inteligentes demais serem vaporizadas. Mesmo que ele fosse uma criança. Na verdade Winston consegue se lembrar de situações que o faz questionar se ele realmente viveu a situação ou se foi alucinação, afinal, será que outras pessoas também se lembram que há alguns anos a Oceania não estava em guerra contra a Letásia e sim contra a Eurásia, agora sua aliada? Ou que as condições de vida pioraram e não melhoraram como é anunciado? Ou que as produções de alimentos e outros itens não eram tão incríveis assim e tantas outras mudanças?
Os dois objetivos do Partido são conquistar toda a superfície da Terra e extinguir de uma vez por todas a possibilidade de pensamento independente.
Posição 57%
Ao longo da narrativa, Winston demonstra uma constante vontade de se rebelar contra as imposições do Partido de pequenas maneiras, como escrever um diário, comprar itens do passado no bairro dos proletas, classe essa que é a base da sociedade e não é vigiada constantemente. Ele também acredita que a base de uma revolução está justamente nessa classe, pela quantidade de pessoas que estão nela, mas ao mesmo tempo acredita na existência da Irmandade, uma organização secreta criada por Emmanuel Goldstein, o inimigo maior do Estado.

Entretanto, ainda que acredite nisso, Winston não é uma pessoa de atitudes grandiosas; ele se rebela, mas não revoluciona, não incita pessoas a se unirem em prol de uma mudança significativa; sua rebeldia apenas o beneficia por um curto período.
Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota pisando em um rosto humano… para sempre.
Posição 79%
A distopia escrita por Orwell em 1948 (olha aí a inversão dos dois último números e temos o ano da história) é assombrosamente similar com tudo que vivemos nos últimos anos e principalmente com os dias atuais e, se o leitor tiver alguma dificuldade em perceber isso (duvido que não perceba), nesta edição da Antofágica há textos complementares no início e no fim do livro que nos ajudam na reflexão das similaridades: falta de privacidade, os dois minutos de ódio e a semana do ódio que podemos facilmente relacionar a atual prática do cancelamento, telas por todos os lados vigiando, manipulação dos fatos e informações para o benefício político, a criação de uma nova língua que encurta o vocabulário a cada ano — ao contrário do que normalmente acontece —, retirando palavras e tornando impossível expressar-se contra o Partido e tudo que ele representa e tantas outras coisas.
A mutabilidade do passado é a doutrina central do Ingsoc.
Posição 63%
Demorei bastante lendo esse livro, pois constantemente meus pensamentos vagavam, analisando como um livro escrito há tanto tempo podia ser tão real atualmente. Mas a base disso é o fato de que, de 1948 até os dias atuais, a base da sociedade não mudou. Ou seja, nós temos uma classe proletária na base da sociedade, que suporta toda o restante e as poucas mudanças que ocorrem na pirâmide se dá nas classes intermediárias, subindo ou descendo. Porém, quem está no super topo da pirâmide (o Grande Irmão), permanece.

Terminei a leitura há dois dias, já discuti sobre ela no Clube de Leitura, mas a história ainda fervilha dentro de mim. Ocasionalmente percebo que estou ali pensando nas similaridades com a atualidade, com o desgoverno (aplicando aqui a Novilíngua) que temos, com as fake news surgindo a todo momento nas redes sociais. Tenho certeza que esse livro ainda vai me fazer refletir bastante e sei que fará o mesmo com quem se permitir essa leitura.

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24 maio, 2021


[Resenha] A Ascensão da Magia - Nora Roberts

Ficha Técnica 

Título: A Ascensão da Magia
Título Original: The rise of magicks
Autor: Nora Roberts
ISBN: 978-65-5565-075-4
Páginas: 432
Ano: 2021
Tradutor: Simone Lemberg Reisner
Editora: Arqueiro
   A batalha final começou.
Depois que a Catástrofe destruiu a civilização como conhecíamos, a magia se tornou comum. Fallon Swift passou sua juventude aprendendo a usar seu poder. Mas ela não pode viver em paz enquanto não libertar aqueles que são perseguidos pelo governo ou pelos fanáticos.
Os que são mágicos como ela continuam sendo caçados, trancados em laboratórios e torturados por anos a fio. Fallon está determinada a resgatar todos, até mesmo aqueles que foram cúmplices desse mal por medo ou fraqueza.
Além do poder da magia, ela conta com a força do amor de sua família e de Duncan, seu companheiro, com quem tem um vínculo ancestral. Enquanto enfrenta um velho inimigo, Fallon elabora o plano definitivo para salvar o mundo: formar um exército para restaurar o escudo místico que já protegeu a todos.
Em A Ascensão da Magia, Nora Roberts conclui sua trilogia distópica, criando um fim que ficará marcado na mente dos leitores.

Resenha


A Ascensão da Magia traz a conclusão da trilogia distópica Crônicas da Escolhida, da Nora Roberts. Trazida para o Brasil em 2019, o início dessa história me lembrou um pouco o que ocorreu conosco no final do mesmo ano e início de 2020: uma doença que não tínhamos nenhuma informação, pessoas morrendo… claro que estamos longe dos números alarmantes que a Catástrofe proporcionou, mas nem por isso menos ruim. A questão é que Nora seguiu novamente, e de forma brilhante, a fantasia, trazendo elfos, bruxas, metamorfos surgindo após o retorno da magia ao mundo.

No final de De Sangue e Ossos vimos que Fallow já chegou à Nova Esperança e no caminho aumentou o seu exército. Também vimos que Petra, sua prima, havia se infiltrado na comunidade e trouxe muita dor aos habitantes da pequena cidade, o que aliás é só o que ela e seus pais sabem fazer: levar dor, maldade e tudo de sombrio. 

Fallow agora está mais perto de cumprir sua missão, trazer a luz de volta ao mundo, e para isso ela contará com uma rede de apoio firme e sincera. Seus pais, inclusive seu pai biológico, seus irmãos, os Primeiros de Nova Esperança, seu exército, e, claro, os gêmeos Tonia e Duncan, descendentes dos MacLeod, que com ela formam a tríade dos Tuatha de Danann, destinados a estar juntos no final da batalha.
— Não faz sentido perguntar por quê, mas eu continuo voltando a uma questão. Vinte anos atrás, o mundo que você conhecia, que mamãe conhecia, terminou. Bilhões de pessoas tiveram mortes terríveis por causa da Catástrofe. Nós somos o que resta, pai, e estamos nos matando.
P. 21
O início de A Ascensão da Magia nos leva dois anos depois de De Sangue e Ossos, ou seja, Fallow está mais forte, mais preparada e o mesmo pode ser dito de Duncan, Tonia e todos os outros. Assim, vários ataques vão acontecendo, levando a pequenas e graduais vitórias da Luz Para a Vida contra os Guerreiros da Pureza e dos Incomuns Sombrios, caminhando para a batalha final, onde precisarão destruir um dragão sombrio e tudo o que ele representa.

Entretanto, ainda que continue sendo uma força na guerra, Duncan continua distante de Nova Esperança, para dar a si e a Fallow o espaço necessário para entender a ligação que sentem um pelo outro, mas como havia prometido voltar em dois anos para lutar ao lado dela para retomar Washington e para ela, esse momento está cada vez mais próximo. Porém, ainda que saiba que seu tempo para pensar na possibilidade de um relacionamento está chegando ao fim, Fallow tem uma missão, não há tempo para pensar em romance, amor, sexo. Então o que farão com esse clamor que sentem um pelo outro enquanto precisam viver incontáveis batalhas?
— Eu não sei o que é. — Ele pegou o braço dela antes que ela se virasse. — Não sei, mas está dentro de mim desde a primeira vez que sonhei com você. Estou começando a penar que isso começou com meu primeiro sopro de ar. Eu quero você, e quanto a todas as outras que um dia eu quis? Elas são como fumaça, facilmente removíveis. Não parece muito correto, mas é assim. É você.
Ela entendeu aquele desejo, porque também o sentia.
P. 173
De batalha em batalha Fallow leva seu exército de luz em direção ao final do domínio das trevas, conquistando cidade após cidade, derrubando líder após líder o que torna o livro emocionante do início ao fim. Como é muito crível, não é uma única batalha que encerra mais de vinte anos de trevas, é um conjunto de lutas, tudo é construído aos poucos, base a base.

Ver amigos, famílias, desconhecidos unidos lutando por um mundo melhor, por um mundo de paz onde todos possam viver em segurança é inspirador e, vivendo o momento atual, ajuda a perceber que sempre há o bem, pessoas boas. Os livros têm esse poder, de evocar sentimentos bons quando mais precisamos.
— É por isso que eles não podem nos vencer. Eu não sei por que eles querem nos matar, destruir tudo o que é bom. Posso sentir o que eles sentem, mas não consigo entender. Eu sei que eles podem nos machucar, roubar tudo que temos, mas eles não podem nos vencer porque nós somos capazes de amar um bom cão o suficiente para deixar que ele vá embora mesmo quando isso dói. Eles podem queimar a terra, mas nós vamos plantar. Eles podem queimar de novo, mas vamos plantar outra vez. Eles não conseguem nos deter. Eles não têm como vencer.
P. 207
Assim como Ano Um e De Sangue e OssosA Ascensão da Magia é incrível do início ao fim e, assim como eu disse no fim da resenha do livro anterior, eu realmente devorei o livro. Os seres fantásticos que surgiram com a Catástrofe, as amizades firmadas, os casais que se formaram aos longos da trilogia, as alianças constituídas em amor, as famílias se apoiando… amei tudo! Thanks, Nora!
— Amar você me deixa com medo — disse ela. — Medo do que está por vir, aonde eu estou levando os outros comigo. Você tem medo?
— De morrer em batalha? De perder outra pessoa que eu amo? É claro que sim. E medo não significa covardia. Fazer o quem a seguir, isso é o que conta.
P. 279

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20 novembro, 2020


[Resenha] Piano Mecânico - Kurt Vonnegut

Ficha Técnica 

Título: Piano mecânico
Título Original: Player piano
Autor: Kurt Vonnegut
ISBN: 978-65-5560-022-3
Páginas: 496
Ano: 2020
Tradutor: Daniel Pellizzari
Editora: Intrínseca
Clássico redescoberto da literatura distópica narra um mundo dominado por gerentes, engenheiros e máquinas Em um futuro não muito distante, pós uma nem tão distópica Terceira Guerra Mundial, as máquinas finalmente venceram. Quase tudo foi automatizado e logo a sociedade se dividiu sob um novo sistema de estratificação não mais baseado em dinheiro, mas sim em inteligência. De acordo com seu QI e capacidade intelectual, os indivíduos são classificados e registrados em um cartão perfurado e sua posição social ― um destino de glória ou esquecimento ― só pode ser definida a partir da análise desses dados. Do lado dos privilegiados ― engenheiros e gerentes ― o doutor Paul Proteus leva uma vida confortável no alto escalão das Indústrias Illium, o maquinário que controla toda a vida da cidade homônima. Sua casa confortável, o prestígio entre os pares, a esposa atenciosa e dentro dos padrões: absolutamente tudo está em seu devido lugar e a ordem impera. A visita inesperada do inquieto e inconformado Ed Finnerty, um ex-colega de trabalho, promove um abalo sísmico em Paul e suas consequências, a princípio restritas à psique, logo se transformam em uma ameaça não apenas ao seu estilo de vida, mas ao de toda a estrutura que o cerca. Quando atravessa o rio que divide a cidade e suas castas, Paul vê com os próprios olhos como é a vida de quem foi excluído do sistema. Mais do que uma crítica à automação e ao progresso desenfreado das tecnologias, Piano mecânico é um livro sobre o desconforto inerente que toda estrutura social causa ao homem moderno. Escrito logo após a publicação de 1984, livro pelo qual Vonnegut admitiu ter sido fortemente influenciado, a obra compartilha com Orwell a ansiedade do pós-guerra e o medo de que, em tempos de paz, as nações venham a se submeter a níveis potencialmente paranoicos de controle social.

Resenha


Muito antes de se tornarem o gênero literário favorito de sete em cada dez adolescentes na década de 2010 (estatística criada por mim mesma), distopias já eram populares e um retrato peculiar de sua época. O termo foi criado em 1868, em contraponto à utopia criada pelo livro de Thomas More, apesar de o primeiro livro distópico só ter sido publicado em 1924 (para quem tiver interesse, o livro se chama We, do Yevgeny Zamyatin, e não tem tradução para o português). Bem antes de Admirável Mundo Novo (1932) e 1984 (1949), que são os títulos que geralmente vem à mente quando a gente pensa em distopias. 

Uma característica importante de distopias é que elas são fundamentadas em medo. Cada geração tem suas próprias ideias do que pode dar errado no futuro e essas ideias são refletidas no tipo de distopia que é criada. Por exemplo, quando há uma maior paranoia em relação ao comunismo, as histórias tendem a se focar em cenários onde todas as pessoas são todas iguais e sem personalidade, tendo a vida controlada pelo governo. Uma sociedade como a nossa atual, em que as pessoas valorizam muito suas liberdades individuais, tende a gerar narrativas mais violentas, focadas em opressão. 

Em Piano Mecânico, o medo é de que o trabalho humano seja substituído por máquinas e que a maioria das pessoas se torne dispensável. É uma sociedade onde ninguém morre de fome e todos tem o suficiente para sobreviver, mas ainda assim é marcada por uma desigualdade social muito grande. Uma cidade literalmente dividida por castas que habitam bairros diferentes. Depois de uma segunda revolução industrial. A maioria das funções humanas passou a ser exercida por máquinas, relegando pessoas a funções indesejáveis. O poder está nas mãos dos engenheiros e dos gerentes das empresas públicas, que vivem na parte mais nobre da cidade, com suas grandes casas e reuniões no country club. Do outro lado do rio fica Domicílio, cheio de pobres insatisfeitos e sujeira. E onde se passa a maior parte da história. 

O livro conta duas narrativas que se conectam em determinado ponto. A primeira é a visita de um xá e seu aparente espanto com a forma como a sociedade é organizada nessa cidade. A segunda é a queda de um engenheiro, um dos homens mais bem pagos da cidade. Paul começa apenas incomodado com o comportamento de um amigo e passa a questionar a estrutura social em que vive. É curioso que os dois personagens representem pontos de vista opostos sobre a mesma cidade: de um lado, o estrangeiro crítico, do outro, o nativo complacente. Paul representa o topo da pirâmide social de Illium: um homem bem sucedido, ambicioso e competente, vindo de uma família com tradição no serviço público. E ele vai ser confrontado com a desigualdade que sua posição causa. 

O livro tem um ritmo um pouco lento para quem está acostumado com distopias contemporâneas mas que lembra muito o ritmo das histórias mais antigas. Os capítulos são cheios de detalhes e é como se o cenário fosse um personagem extra, que deve ser apresentado e analisado. Nesse ponto, o livro lembra Admirável Mundo Novo e 1984, nos quais provavelmente se inspirou. Com certeza vai entrar nas minhas futuras discussões sobre se a sociedade retratada é viável e funcionaria na vida real. Para quem gosta de distopias clássicas, Piano Mecânico é uma excelente opção de leitura e vale cada palavra. A edição nova está lindíssima, com capa dura (meu coração chega bate mais rápido) e uma guarda linda que imita a partitura de uma pianola (o tal piano mecânico do título). Leitura obrigatória para os fãs de Admirável Mundo Novo e 1984.


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16 novembro, 2020


[Resenha] A Máquina do Tempo - H. G. Wells


Ficha Técnica 

Título: A Máquina do Tempo
Título Original: The time machine
Autor: H.G. Wells
ISBN: 978-65-5552-002-6
Páginas: 112
Ano: 2020
Tradutor: Luisa Facincani
Editora: Principis
Um cientista londrino viaja, a bordo de uma Máquina do Tempo, do século XIX para o ano de 802.701. Chegando no que seria a Londres do futuro, o Viajante do Tempo encontra duas espécies que evoluíram do ser humano: os Eloi, que viviam na superfície, e os Morlocks, que se escondiam da luz no subterrâneo. O Mundo Superior era habitado por seres frívolos, delicados e infantis que estavam prestes a conhecer a sua Nêmesis, resultado de decisões tomadas no passado. O Viajante do Tempo perde a sua Máquina do Tempo e com apenas uma caixa de fósforos, se pergunta se conseguirá retornar ao presente.

Resenha


H. G. Wells é conhecido como o pai da Ficção Científica, afinal, seu primeiro romance escrito foi A Máquina do Tempo, que inspira até hoje muitos livros, filmes e teorias relativas a viagem no tempo. 

Neste livro, publicado em 1895, Wells apresenta o Viajante do Tempo, um cientista que vive em Londres no século XIX e que busca provar a existência da quarta dimensão e da possibilidade de o homem viajar através dela, para o futuro ou passado. 

O narrador desta história, não identificado, está em uma reunião na casa do Viajante com outros personagens (o Médico, o Psicólogo, o Prefeito Provincial) quando o Viajante explica a quarta dimensão e a possibilidade da viagem no tempo, com uma demonstração em pequena escala. Claro que, por mais que cientificamente sua explicação seja plausível, gera desconfiança nos personagens presentes, pela possibilidade e pessoa do Viajante, que tem fama de não ser tão confiável (ainda que isso não seja muito explicado). 

Na sequência, o Viajante havia marcado outra reunião em sua casa, mas, chegando atrasado, seus convidados (alguns que estiveram na primeira reunião e outros novos) são surpreendidos pela forma com que ele aparece para recebê-los: descalço, sujo, cansado e abatido. A surpresa surge depois da refeição quando, recomposto, o Viajante narra sua viagem ao ano de 802701, um futuro completamente diferente do que ele imaginava. 

No futuro descrito o Viajante encontra duas variações da raça humana: os Elois e os Morlocks. Os Elois são as primeiras criaturas com quem tem contato, são figuras que vivem na superfície e que têm traços muito similares entre homens e mulheres, o que torna difícil sua distinção sem uma cuidadosa avaliação, possuem cabelos cacheados de maneira uniforme, sem pelos no rosto, orelhas e bocas pequenas, queixos finos e pontudos e olhos grandes e suaves. Depois ele descobre a presença dos Morlocks, que vivem nos subterrâneos e, por estarem adaptados a viver no escuro, possuem a pele descolorida, olhos grandes com retinas muito sensíveis a luz. 

Neste futuro extremamente distante, Wells mostra uma sociedade que já passou pelo seu apogeu e agora vive a decadência, afinal, depois de ter conquistado tudo o que poderia ser esperado, a humanidade deixou de buscar, de evoluir. Claro que tudo o que sabemos sobre a Terra de 802701 (e esse possível apogeu) é baseado nas suposições que o Viajante faz enquanto está lá, pois não existem mais livros, não há tecnologia, fogo, nem outras coisas que imaginaríamos que existiriam no futuro. 

Depois da primeira noite, o Viajante "perde" sua máquina e aqui entra a problemática de descobrir onde está e como recuperá-la, ou mesmo buscar os meios para construir uma nova para retornar ao seu tempo. 
Não há inteligência onde não há mudanças ou necessidade de mudanças. Apenas animais que enfrentam uma grande variedade de necessidades e perigos precisam de inteligência.
Da maneira como vejo, o homem do Mundo Superior focou-se em sua frágil beleza, e o Mundo Subterrâneo, em uma mera indústria mecânica. Porém aquele perfeito estado não dispunha de uma coisa essencial para a perfeição mecânica: estabilidade total. 
Posição 85%
Ao contrário do início do livro, onde há muito embasamento científico e é bem descrito, o decorrer da história se mostra superficial, corriqueiro e simples. Mas, sendo esse o primeiro romance de Wells, que antes disso escrevia textos científicos sobre biologia em revistas acadêmicas, acredito que este possa ser o motivo desta superficialidade. Também posso relacionar que essa impressão que o livro deixa na verdade é causada pelo nosso repertório de viagem no tempo, afinal muitos de nós já assistimos diversos filmes, séries, desenhos animados, lemos livros com esse tema e/ou que possuam uma problemática com esse tema (De Volta Para o Futuro, Vingadores, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban são apenas alguns exemplos), então buscamos algo similar aqui. 

Acredito que seja muito válido ler este livro, afinal, é a base de muitos sobre o tema e nada melhor do que conhecer a origem, não é mesmo? Não dá para simplesmente comparar com o que temos hoje em dia sendo que o livro foi publicado há 125 anos, concordam? 


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20 agosto, 2020


[Resenha] Mentes Sombrias - Alexandra Bracken

Ficha Técnica 

Título: Mentes Sombrias
Título Original: The Darkest Minds
Autor: Alexandra Bracken
ISBN: 978-85-510-0383-1
Páginas: 384
Ano: 2018
Tradutor: Viviane Diniz
Editora: Intrínseca
Do dia para a noite, crianças começam a morrer de um misterioso mal súbito. Em pouco tempo, a doença se espalha e os que sobrevivem a ela desenvolvem habilidades psíquicas assustadoras. Uma delas é Ruby. Na manhã do seu décimo aniversário, um acontecimento aterrador faz com que seus pais a tranquem na garagem e chamem a polícia. A menina é então levada para Thurmond, um acampamento que segue as diretrizes brutais do governo vigente. Seis anos depois, ela se torna uma das jovens mais perigosas de Thurmond, embora tenha que esconder isso a todo custo para a própria segurança. Quando a verdade vem à tona, Ruby desperta o interesse de muitas pessoas e precisa escapar às pressas. Fora dali, ela se alia a fugitivos de outros acampamentos e conhece Liam, que lidera uma fuga em direção ao único refúgio para adolescentes como eles. Por mais que queira fazer amigos e ter uma vida normal, Ruby sabe que isso não vai ser possível, porque nenhum lugar é seguro, e ela não pode confiar em ninguém - nem em si mesma.

Resenha


Mês passado eu finalmente assisti o filme Mentes Sombrias e gostei tanto da premissa que fiquei curiosa para ler o livro — como já aconteceu outras vezes — afinal, se gostei do filme, certamente o livro deveria ser ainda melhor. E não deu outra. 

Mentes Sombrias
nos leva à um futuro distópico, onde, de repente, as crianças dos Estados Unidos, com idade entre 10 e 14 anos, começaram a morrer subita e misteriosamente. Como se não fosse ruim o suficientes, as crianças que sobreviveram passaram a apresentar "sintomas" muito estranhos. 

Iniciamente chamada de Doença de Everhart — por conta da primeira vítima —, a  Neurodegeneração Idiopática Adolescente Aguda, ou simplesmente Niaa, transformou crianças e adolescentes em seres com poderes psiquicos extraordinários, o que preocupou o governo (claro, né?!). Logo eles construiram campos de reabilitação para alojar e tratar as crianças e classificou-as por cores de acordo com as habilidades demonstradas: verde - inteligência aprimorada; azul - telecinese; amarelo - eletricidade; laranja - manipulação mental; vermelho - fogo.
Habilidades. Poderes que desafiavam a lógica, talentos mentais tão bizarros que médicos e cientistas reclassificaram toda a nossa geração como Psi. Não éramos mais humanos: nossos cérebros romperam esse molde.
P. 39
Ruby Daly acabou de completar 10 anos e, por conta de um incidente infeliz, se viu a caminho de Thurmond, um dos campos do governo. Lá, as Forças Especiais Psi (FEP) controlam tudo com mãos de ferro. Foi lá que Ruby descobriu sobre as divisões entre as crianças e, mesmo sem saber ao certo como, conseguiu enganar o avaliador, fingindo ser verde. 

Seis anos depois, Ruby está prestes a ser descoberta, mas uma ajuda inesperada a tira de Thurmond, mas não a afasta do perigo. O mundo exterior não é nada parecido com o que Ruby se lembrava: o governo tenta manter o controle; o presidente Gray continua sendo o presidente, tendo conseguido aprovação para manter-se no cargo enquanto o  problema com a Niaa ainda não fosse resolvido; a crise econômica destuiu o país, os empregos; as fronteiras estão fechadas; cidades, desertas. Para completar, FEPs, caçadores de recompensas e a Liga das Crianças perseguem qualquer criança que encontrarem no caminho. Assim, ela encontrará Liam, Bolota e Suzume, três amigos que fugiram de um campo na Caledônia e estão tentando chegar à East River, um possível lugar seguro para crianças como eles. 

Enquanto tentam sobreviver, esses quatro companheiros de viagem veem uns nos outros as diferenças com que foram criados, como aprenderam — ou não — a lidar com as habilidades que apareceram. 

Sendo o primeiro livro de uma distopia, é comum que o livro traga muitas passagens com explicações, para introduzir a doença, o governo, as facções que lutam contra o governo e todas as consequências que a sociedade sofre. 

Estou curiosa para saber quando a Intrínseca trará os outros livros dessa série, pois preciso ver a evolução desses personagens, aprendendo cada vez mais a usar suas habilidades. 

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23 março, 2020


[Resenha] De Sangue e Ossos - Nora Roberts

Ficha Técnica 

Título: De Sangue e Ossos
Título Original: Of blood and bone
Autor: Nora Roberts
ISBN: 978-85-306-0084-6
Páginas: 432
Ano: 2020
Tradutor: Simone Reisner
Editora: Arqueiro
Um novo poder está surgindo. Fallon Swift pouco conhece do mundo que existiu antes da Catástrofe. As cidades estão destruídas, gangues de criminosos e de fanáticos religiosos cruzam as estradas à procura de sua próxima vítima e aqueles que têm poderes mágicos como ela continuam sendo caçados. Prestes a completar 13 anos, Fallon sabe que se aproxima o dia em que sua verdadeira natureza, sua identidade como A Escolhida, será revelada. No meio da floresta, ela começará seu treinamento sob a orientação do feiticeiro Mallick, que vem apurando as próprias habilidades ao longo de séculos. A menina aprenderá métodos antigos de cura e técnicas de luta, conviverá com fadas, elfos e metamorfos e precisará descobrir dentro de si um poder que nunca imaginou possuir. Quando o momento certo chegar, Fallon vai empunhar a espada e o escudo e partir para cumprir sua missão. Até que ela cresça o suficiente para se tornar a mulher que está destinada a ser, o mundo continuará em perigo. Fallon Swift é A Escolhida, e só ela poderá salvar a humanidade.

Resenha


De Sangue e Ossos nos leva de volta para a trilogia distópica Crônicas da Escolhida e muita coisa aconteceu desde o final de Ano Um. Para nos ambientar melhor, o prólogo se passa no Ano Quatro e nos dá uma ideia do que aconteceu nesse tempo no mundo e o como está o pessoal de Nova Esperança; como os ataques de grupos de Incomuns Sombrios e dos Guerreiros da Pureza continuam, como fanáticos se agrupam em seitas irracionais, como a humanidade, por mais que já esteja sofrendo, sempre consegue piorar as coisas com as próprias mãos.

O capítulo um nos leva ao Ano Doze, onde as coisas ainda não melhoraram e, os que ainda têm esperança de que tudo fique bem, aguardam a chegada d'A Escolhida. Fallon Swift cresceu sabendo que era a descendente dos Tuatha de Danann e que sua missão é libertar o mundo da escuridão. Para isso, seus pais, Lana e Simon, lhe instruíram em várias áreas e incentivaram que estudasse o máximo possível com os livros que tinham na fazenda, mas também haviam alertado que, quando completasse treze anos, passaria dois anos afastada da família treinando com o feiticeiro Mallick.

Por mais que Fallon saiba de sua missão - assim como seus pais - em alguns momentos é difícil aceitar que precisa encarar esse desafio, principalmente sendo apenas uma adolescente, então, quando ela parece desafiar essa decisão, conseguimos entendê-la, sabendo que crescer sabendo que será a salvadora do mundo não deve ser fácil. Para os pais não é mais simples, muito menos para os irmãos. A família Swift é muito unida e Fallon não se sente diferente sendo filha biológica de Max Fallon, pois Simon é um pai de verdade para ela e sempre incentivou que ela conhecesse a história de vida de Max, assim como lesse os livros que ele publicou.
— A fé é uma espada e um escudo, mas precisa de coragem, inteligência e força para funcionar. Alguns descobriram sua própria magia e se voltaram para a escuridão, outros ficaram loucos. E alguns, como seu pai biológico, aprenderam a liderar. Como sua mãe, aprenderam a abraçar, construir e proteger. Alguns, como aqueles que apareceram no seu sonho, com ou sem magia, aprenderam a se unir, a lutar, a trabalhar juntos para ajudar a outros.
P. 118
Durante os anos de treinamento com Mallick, afastada completamente de sua família, Fallon começa a aprender muito mais sobre magia, sobre sua herança, seu papel no futuro da humanidade e como liderar não é uma tarefa fácil, afinal requer muito treinamento, conhecimento além de contar com aliados de confiança.

Alternando os capítulos dos anos de treinamento de Fallon, vamos a Nova Esperança e vemos como o grupo formado por Eddie Clawson, Arlys Reid, Chuck, Fredinha, Rachel Hopman, Jonah Vorhies, Katie MacLeod, Will Anderson, Bill Anderson e Flynn continuam firmes e fortes, sobrevivendo, melhorando a estrutura da pequena cidade e o principal, resgatando inocentes. Entretanto, agora eles contam com reforços de muitas pessoas que resgataram ao longo dos anos e, por mais que não quisessem, também contam com o apoio dos gêmeos de Katie, Duncan e Antonia, que já possuem os poderes mais desenvolvidos por serem descendentes dos MacLeod.
— O medo pode ser uma arma tanto quanto a coragem. Sem medo não existe prudência. Sem prudência vem o descuido. Com o descuido vem a derrota.
P. 56
Quando Fallon inicia sua missão verdadeiramente, a gente percebe que ela, Duncan e Tonia formarão uma tríade que será fundamental para o futuro da humanidade, principalmente quando ela chega em Nova Esperança com parte de seu exército formado. Mas ainda há muito a ser feito e, se já houveram tantas batalhas, personagens que acreditava estarem mortos e traições neste livro, imagina o próximo que será a conclusão dessa trilogia? Qual será o futuro do mundo? Como três adolescentes conseguirão derrotar o mal completamente?

Esperar o livro chegar para devorar!

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19 agosto, 2019


[Resenha] Ano Um - Nora Roberts

Ficha Técnica 

Título: Ano Um
Título Original: Year One
Autor: Nora Roberts
ISBN: 978-85-8041-969-6
Páginas: 400
Ano: 2019
Tradutor: Simone Reisner
Editora: Arqueiro
Tudo começa na noite de Ano-Novo. A doença se alastra rapidamente. Em questão de semanas, a rede elétrica para de funcionar, as leis e o sistema de governo entram em colapso e mais da metade da população mundial é dizimada. Onde existia ordem, agora só há caos. E conforme o poder da ciência e da tecnologia diminuíam, a magia crescia e tomava o seu lugar. Uma parte dessa magia é boa, como a feitiçaria praticada por Lana Bingham no apartamento que divide com o amante, Max. Outra parte dela, no entanto, é inimaginavelmente maligna, e pode se esconder em qualquer canto, numa esquina, nos fétidos túneis sob o rio ou dentro daqueles que você mais ama e conhece…
 Espalham-se rumores de que nem os imunes nem os dotados estão a salvo das autoridades que patrulham as ruas devastadas, então Lana e Max resolvem deixar Nova Iorque. Outros viajantes também seguem esperançosos para o oeste: Chuck, um gênio da tecnologia que mantém o bom humor em um mundo off-line; Arlys, uma jornalista que insiste em buscar e registrar a verdade; Fredinha, uma jovem com um otimismo que parece fora do lugar nessa paisagem desoladora; Rachel e Jonah, médica e paramédico, determinados a proteger uma jovem mãe e seus três bebês recém-nascidos. Em um mundo em que cada estranho no caminho pode representar a morte ou a salvação, nenhum deles sabe o que encontrarão. Porém, um novo horizonte os aguarda, a concretização de uma profecia ancestral que transformará a vida de todos os sobreviventes. O fim chegou. O início é o que vem agora.

Resenha


Ano Um inicia a trilogia distópica Crônicas da Escolhida e foi uma história bem diferente do que já li da Nora Roberts.

Em uma noite de ano-novo, quando todos estavam comemorando e fazendo votos de um ano próspero, uma doença misteriosa se alastrou rapidamente pelo mundo e, em poucas semanas, matou milhões de pessoas. A doença, denominada Catástrofe, matava as pessoas em poucos dias e, devido a rapidez como ela se propagava, os cientistas não conseguiam identificar sua origem, a forma de transmissão e o principal, não conseguiam achar uma cura.
A Catástrofe espalhava seu veneno com extrema rapidez, enquanto as magias, tanto a luz quanto a escuridão, se levantavam para preencher o vazio deixado pela morte.
O que restaria ao fim de tudo?
P. 53
Claro que a ideia de uma doença grave, rápida e 100% letal para quem era infectado criou outros problemas: a infraestrutura da sociedade entrou em colapso. Governos, leis, transportes e meios de comunicação ruíram, ou seja, o caos estava instalado e a onda de violência ganhou proporções ainda maiores quando nessa mesma confusão em que estava o mundo sobrevivente, algumas pessoas "sofreram mutações", descobrindo-se seres que até então existiam apenas nos livros de ficção: fadas, elfos, videntes, magos e tantos outros.

Nora nos apresenta alguns personagens que tentarão sobreviver nesse novo mundo, pessoas comuns, outras que já possuíam o dom da magia e outras que foram despertadas depois da Catástrofe. Ao longo das quatro partes que dividem a história, veremos os caminhos de Lana Bingham, Max Fallon, Eddie Clawson, Arlys Reid, Chuck, Fredinha, Rachel Hopman, Jonah Vorhies e Katie MacLeod Parsoni nessa nova realidade e buscando reerguer a sociedade com o que restou, reaprendendo desde atividades básicas, como plantar para obter alimento, até as mais complexas, como conseguir ter eletricidade e internet para se comunicar com outros sobreviventes e entender qual a realidade em outros locais do mundo.
— Na minha maneira de ver, o maior problema que tivemos, desde o início, foram pessoas que apontavam o dedo, e armas, para os que simplesmente não eram como elas. Devíamos tentar melhorar desta vez. Pode ser nossa última chance de fazer as coisas certas.
P. 373
No início do livro fiquei confusa em alguns momentos com a quantidade de personagens e de situações ocorrendo ao mesmo tempo, mas logo a história me prendeu e mostrou como foi fácil a doença se propagar, como rapidamente a sociedade ruiu, levando parte do que sobrou do mundo ao fanatismo religioso, perseguições às pessoas com dons - os Incomuns. Enquanto alguns focam em reconstruir a vida, outros pensam apenas em mais violência e destruição.

Sendo o início da trilogia, Nora ambientou e nos preparou para o que virá nos próximos livros e já fiquei curiosa para saber como a história irá se desenrolar.
"... Acredito que, entre aqueles que denominamos Incomuns, há luz e escuridão, da mesma maneira que há luz e escuridão em todos nós."
P. 105
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04 dezembro, 2018


[Resenha] Vox - Christina Dalcher

Ficha Técnica 

Título: Vox
Título Original: Vox
Autor: Christina Dalcher
ISBN: 978-85-8041-889-7
Páginas: 320
Ano: 2018
Tradutor: Alves Calado
Editora: Arqueiro
Uma distopia atual, próxima dos dias de hoje, sobre empoderamento e luta feminina. O SILÊNCIO PODE SER ENSURDECEDOR #100PALAVRAS O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade. Esse é só o começo... Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir. ...mas não é o fim. Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz.

Resenha


Inquietante. Com essa palavra posso iniciar a resenha desse livro. Quando Vox foi apresentado no evento dos parceiros, na Bienal, fiquei impressionada com a premissa dele: as mulheres têm uma cota diárias de cem palavras 😱. Sim! Conseguem imaginar isso?

Há um ano o governo dos Estados Unidos mudou drasticamente sua política, voltando a aplicar regras retrógradas. Há um anos as mulheres foram proibidas de trabalhar, de vestir-se de maneira provocante, de estudar as mesmas disciplinas que os homens e, o principal, elas perderam a voz.

Guiados na narrativa pela Dra. Jean McClellan, protagonista dessa história,  vamos descobrir que essa mudança não foi tão repentina assim. Enquanto estudava neurolinguística, sua colega de quarto, Jackie, lutava bravamente em diversas passeatas lutando pela representatividade feminina e das minorias. Para Jean tudo era muito extremista por parte de sua colega, era impossível acreditar que tudo o que ela dizia um dia poderia se tornar realidade. Por isso ela sempre dizia: qual a necessidade de ir nessas passeatas? Qual a razão para deixar seus estudos de lado para ir votar? Para quê me preocupar com o Congresso, com seus integrantes e o que estão discutindo nas sessões?
A pior parte de tudo era que Jackie estava errada. Nós não diminuímos de 20% para 5% de mulheres no Congresso. Nos quinze anos seguintes, fomos reduzidas a praticamente zero.
Nessa última eleição chegamos até mesmo àquele objetivo impensável, e a previsão de Jackie de voltar ao início dos anos noventa parecia sólida - se a pessoa estivesse se referindo ao início da década de 1890.
P. 23
Quinze anos de perguntas desse gênero e com as mesmas respostas de Jean e de tantas outras pessoas levou à ascensão do Movimento Puro. O presidente Sam Myers e o reverendo Carl Corbin levam a população com mão de ferro. Assim, desde a eleição dele as mulheres deixaram de trabalhar e, consequentemente, Jean e sua equipe deixaram sua pesquisa sobre afasia de Wernicke, seu e-mail e linha telefônica foram cancelados, seu passaporte não foi renovado - sua filha caçula nem chegou a conseguir um, a conta bancária também foi cancelada, os livros foram confiscados, internet bloqueada, a TV só transmite os programas permitidos, não há mais shows, peças teatrais e filmes que não sejam previamente autorizados pelo governo. Câmeras foram instaladas nas residências e todas as mulheres, independente da idade, receberam contadores que devem usar nos pulsos, contando suas cem palavras diárias.

Jean é casada com Patrick, médico, que agora trabalha no governo. Juntos eles têm quatro filhos: Steven, os gêmeos Sam e Leo e a caçula, Sonia. Além de todas as outras mudanças, as escolas também tiveram suas alterações: foram separadas por gênero e as meninas deixaram de aprender as mesmas disciplinas, focando apenas no crucial para suas atividades domésticas, além de costura, culinária e afins. Com poucas palavras disponíveis, Jean percebe o quanto Sonia tem falado cada vez menos, como seu primogênito está cada vez mais envolvido pelo Movimento Puro e como ela e o marido têm se distanciado cada vez mais um do outro.
— Vou dizer como mereci o broche. Fui recrutado. Eles precisavam de voluntários da escola dos garotos para fazer rondas nas escolas das meninas e explicar umas coisas. Eu aceitei. E nos últimos três dias estive em campo demonstrando como os braceletes funcionam. Olha. — Ele levanta uma das mangas e mostra a marca de queimaduras no pulso. — A gente vai em duplas e se reveza. Assim, todas as garotas, como Sonia, sabem o que vai acontecer. — Como se quisesse me desafiar de novo, ele engole o restante do leite e lambe os lábios. — Por sinal, eu não a encorajaria a aprender a língua de sinais.
— Por que não?
Ainda estou tentando absorver o fato de que meu filho levou choques de propósito para que "garotas como Sonia saibam o que vai acontecer".
— Mãe, sinceramente... você, mais do que ninguém, deveria saber. — Sua voz assumiu o timbre de alguém muito mais velho, alguém cansado de explicar como as coisas são. — Trocar sinais é contra o propósito do que estamos tentando fazer aqui.
Claro que é.
P. 71-72
Uma situação inesperada fará com que o governo a procure e ofereça a oportunidade de voltar a falar e a trabalhar, mas será que valerá a pena? Trabalhar para um governo que não escolheu, não concorda e não aceita?

As páginas dessa história são angustiantes e perturbadoras, pois nos levam a reflexões profundas sobre nossas escolhas, sobre as consequências de delegar aos outros a escolha do nosso destino, sobre o poder que temos de mudar nossa realidade - para melhor ou pior.
— E quanto tempo você acha que vai se passar até que o reverendo Carl e suas sagradas ovelhas Puras ponham na cabeça que não são só as mulheres e os homens que foram feitos diferentes aos olhos de Deus, mas também os negros e os brancos? Você acha que os casamentos inter-raciais como o meu fazem parte do plano? Se acha, não é tão inteligente quanto eu imaginava.
Sinto que estou ficando vermelha.
— Nunca pensei nisso.
— Claro que não. Olha, não quero ser grosseira, mas vocês, mulheres brancas, só estão preocupadas com... bom... só estão preocupadas com vocês, mulheres brancas.
P. 160
Política, religião, família, poder e ciência são constantes no livro. Também há um romance, mas achei desnecessário. O que acredito ser mais importante nesse história viciante é a reflexão que ela causa no leitor. A escrita transmite tanta verdade que incomoda.

Muitos de nós estamos acomodados em nosso mundo, sem pensar nos outros, sem aproveitar a liberdade que temos de aprender, debater, ouvir, falar. Será que não deveríamos repensar?
— Eu tive que fazer, mãe. Se não fizesse, todos iriam pensar... — Ele para, e um sorriso se esgueira pelo canto da sua boca. — O mal triunfa quando homens bons não fazem nada. É o que dizem, não é?
Steven captou a essência das palavras de Burke, ainda que não as palavras exatas. Mas sei o que ele quer dizer, e assinto.
P. 187
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04 setembro, 2018


[Resenha] Restaura-me - Tahereh Mafi

Ficha Técnica 

Título: Restaura-me
Título Original: Restore me
Autor: Tahereh Mafi
ISBN: 978-85-503-0299-7
Páginas: 352
Ano: 2018
Tradutor: Mauricio Tamboni
Editora: Universo dos Livros
A história de Juliette e Warner continua no eletrizante novo volume da série Estilhaça-me, de Tahereh Mafi, autora best-seller do The New York Times. Juliette Ferrars acreditava ter vencido. Assumiu o controle do Setor 45, foi nomeada nova Comandante Suprema da América do Norte e agora conta com Warner ao seu lado. No entanto, quando a tragédia se instala, Juliette precisa confrontar a escuridão que existe tanto à sua volta quanto em seu interior.




Resenha


Depois de quatro anos da conclusão da trilogia Estilhaça-me, a Tahereh Mafi traz de volta Juliette Ferrars, Aaron Warner e os personagens que nos conquistaram anos atrás. Sim, a trilogia virou uma série (aparentemente com seis livros) e agora será publicada pela Universo dos Livros.

Restaura-me inicia dezesseis dias após Juliette assumir o posto de comandante suprema da América do Norte e, nesse período em que tenta se adaptar às obrigações e expectativas que precisa atender, terá que lidar com que irá descobrir sobre o Restabelecimento e a iminência de uma guerra, afinal, é certo que os outros cinco comandantes supremos do Restabelecimento não deixarão que uma adolescente (que até outro dia estava presa em um hospício do governo por conta de seu poder) mate um de seus comandantes supremos, assuma o poder e fique impune.
Não pensei que seria exatamente fácil ser líder, mas acho que acreditei que seria mais fácil que isso:
Pego-me atormentada por dúvidas a todo momento, dúvidas sobre as decisões que tomei. Fico furiosamente surpresa toda vez que um soldado segue minhas ordens. Estou cada vez mais aterrorizada com a possibilidade de que teremos - de que eu terei - de matar muitos, muitos mais antes que esse mundo se acalme. Mas acho que é o silêncio, mais do que qualquer outra coisa, que tem me deixado abalada.
P. 13
A cada dia Juliette descobre mais segredos do Restabelecimento, mas ela tem ao seu lado Warner, que cresceu nesse meio, e Kenji, seu melhor amigo. Claro que outros personagens do Ponto Ômega, agora estabelecidos nas instalações militares do Setor 45 (ainda liderado por Warner), também terão seu papel nessa nova etapa. Mas são tantos segredos que, muitos deles nem mesmo Warner sabe e as conversas de Castle e Delalieu nos deixam intrigados.
A senhorita deve conversar com o senhor Warner. Ele vai explicar tudo.
Mas Warner não é exatamente conhecido por suas habilidades comunicativas. Não gosta de conversa fiada. Não divide detalhes de sua vida. Não fala de coisas pessoais. Sei que me ama - posso sentir em cada interação quanto se importa comigo -, mas, mesmo assim, só me ofereceu informações vagas sobre sua vida. Warner é um cofre ao qual só tenho acesso ocasionalmente, e com frequência me pergunto quanto ainda me resta descobrir sobre ele. Às vezes, isso me assusta.
P. 52
Os poderes de Juliette se mostram ainda mais fortes, mas também é visível que ela tem muito mais controle sobre eles. Também é possível ver como ela amadureceu com o relacionamento com Warner. Embora ainda seja recente, ambos têm aprendido muito um com o outro e a gente consegue perceber isso por conta da narrativa que é dividida entre os dois.

Nesse livro também temos a inclusão de outros personagens, alguns filhos dos outros comandantes supremos e acredito que isso influenciou para não termos cenas com outros personagens do Ponto Ômega.

Aqui a história parece mais uma introdução para uma nova etapa dessa série, muitos segredos são revelados e muitas cenas nos deixam com muito mais questões a serem respondidas nos próximos livros.

Inicialmente publicada pela Novo Conceito, os três primeiros livros serão relançados pela Universo dos Livros, bem como os dois próximos. Quanto aos direitos da série, que foram vendidos para a ABC Studios, até então não se tem mais novidades.

Então só nos resta esperar e ver como Tahereh conduzirá essa história.

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02 setembro, 2018


[Cinema] Mentes Sombrias


Já tem alguns anos que os estúdios de cinema vem investindo em adaptações de distopias YA (young adult, ou jovens adultos), em busca do novo Jogos Vorazes. A onda começou e teve seu ápice tom a trilogia de Katniss e deu uma esfriada com o fracasso da série Divergente. Mentes sombrias é uma tentativa tardia de dar impulso ao gênero e emplacar uma possível saga distópica adolescente.

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O filme é adaptado do romance da Alexandra Bracken, que é o primeiro de uma tetralogia, e narra as consequências de uma doença misteriosa que matou a maioria das crianças nos Estados Unidos. As que sobreviveram acabaram desenvolvendo habilidades que variam de superinteligência a controle mental e foram enviadas para campos de trabalhos forçados disfarçados de centros médicos. Ruby faz parte dos segundo grupo mais perigoso, os laranjas, que podem manipular as memórias alheias. Quando escapa do campo, ela se vê conectada a outros três jovens: um verde (com superinteligência), um azul (com telecinese) e uma dourada (com eletrocinese), e juntos eles vão atravessar o país atrás de um acampamento comandado por jovens rebeldes.

O elenco é todo formado por atores muito competentes. Desde a Amandla Stenberg (Ruby), que começou sua carreira nas adaptações literárias como a Rue de Jogos Vorazes (), até a Mandy Moore (Cate), a voz da Rapunzel de Enrolados, passando pelo Harris Dickinson (Liam) e pelo Skylan Brooks (Bolota). As performances são todas eficientes e tornam possível a gente acreditar que aqueles personagens se conectam de verdade.

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É compreensível que esse grupo de jovens com características tão distintas tenha se encontrado no meio do caminho e se conectado de uma forma especial, como uma pequena família desajeitada e afetuosa. Esse carinho que eles tem um pelo outro fica evidente em cenas como aquela em que Liam diz pra Zu que ela tem que comer direito, ou quando Bolota e Ruby interagem como irmãos na cena do shopping. Fica fácil pro espectador torcer pelo grupo porque os personagens são todos muito carismáticos. Zu é uma das crianças mais fofas que já existiram, uma criança preciosa demais pra esse mundo; Bolota é uma pessoa genuinamente boa; e Ruby e Liam tem motivações honestas.

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O aspecto mais interessante do filme é como ele lida com diferentes conceitos de masculinidade, representados pelo Liam e pelo antagonista (que eu não vou dizer quem é pra não dar spoiler). Liam, enquanto mocinho, representa características masculinas positivas: ele é protetor, gentil e respeitador e só usa sua agressividade pra proteger o grupo. Quando ele se interessa romanticamente por uma garota, ele usa seu charme e sua bondade pra cativá-la. O antagonista, por outro lado, é o arquétipo da masculinidade tóxica: ele quer controlar a mocinha e usá-la pra seus próprios propósitos. Ele não se importa em manipular, coagir, violar e agir com violência pra conseguir o que quer. E o filme nunca fica em cima do muro em relação a isso: fica bem claro que essas características são consideradas negativas e que o modelo de masculinidade que se deve almejar é o do Liam. É extremamente relevante que um filme voltado para o público adolescente se posicione a respeito desse tópico da forma como foi feito nessa obra, estabelecendo que certos comportamentos são inaceitáveis e até vilanescos.

É o próximo Jogos Vorazes? Possivelmente não. É uma história diferente de qualquer outra que você já viu? Também não. Mas é um filme eficiente e dinâmico, cheio de personagens cativantes e cenas de ação bem coreografadas, que vai te divertir.

Numa escala de uma a cinco cores dos poderes classificados na história, o quanto eu gostei do filme:

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23 janeiro, 2018


[Resenha] A Estrela da Meia-Noite - Marie Lu

Ficha Técnica 

Título: A Estrela da Meia-Noite
Título Original: The Midnight Star
Autor: Marie Lu
ISBN: 978-85-7980-343-7
Páginas: 254
Ano: 2017
Tradutor: Rachel Agavino
Editora: Rocco Jovens Leitores
Adelina Amouteru sobreviveu à febre do sangue, fez uso de seus dons, formou seu próprio exército, vingou-se de seus traidores e conquistou a vitória. Mas seu reinado triunfante está ameaçado, e o inimigo não vem de fora; a sede de vingança da jovem levou seu lado cruel e sombrio a sair do controle, e ela terá que curar antigas feridas se quiser manter tudo o que conquistou. No desfecho da eletrizante trilogia Jovens de Elite, Marie Lu coloca sua protagonista diante de uma nova ameaça que a levará a revisitar fatos dolorosos do seu passado e a fazer uma aliança arriscada e difícil. Será que Adelina está preparada para se transformar na estrela da meia-noite e, finalmente, conhecer a paz?

Resenha

Marie Lu me conquistou lá atrás, com seu primeiro livro. Ao criar personagens fortes, inteligentes e humanos, Marie entregou uma das melhores distopias da atualidade: "Legend". Iniciar uma nova série após um grande sucesso, serviria para reafirmar o talento de Lu além de suas primeiras publicações, e felizmente, a saga Jovens de Elite chegou e foi mais um excelente e eficaz trabalho na biografia da autora.

Em “A Estrela da Meia-Noite”, terceiro e último volume da série, nos deparamos mais uma vez com nossa poderosa anti-heroína Adelina. Com seu jeito obscuro e bastante cruel de governar, a então agora rainha continua com sede de vingança contra aqueles que lhe privaram de usufruir de seus poderes no passado. Enquanto Adelina governa e luta para conquistar novos territórios, algo afeta os Jovens de Elite, os enfraquecendo e levando-os a morte.

Sem saber o que está acontecendo, a Sociedade dos Punhais e a Sociedade da Rosa precisarão deixar suas diferenças de lado para solucionarem um problema em comum. Porém, Adelina além de sofrer com os tormentos pessoais, começa a desconfiar que uma traição dentro de sua guarda é eminente, fato que refletirá em suas escolhas, e obviamente, na batalha final que se aproxima. O egoísmo e sede de vingança de Adelina serão justificativas para que a mesma não mude suas atitudes? E afinal, o que será dos Jovens de Elite caso a destruição em massa não seja interrompida?

Precisarei extirpar esses insurgentes antes que eles se tornem uma ameaça real. Precisarei fazer da morte deles um exemplo mais duro. Precisarei ser mais implacável.
Esta é a minha vida agora.
P. 23

“A Estrela da Meia-Noite” é obscuro e desafiador, ao ponto que os acontecimentos finais vão se desenrolando, o leitor continua sem desconfiar das reviravoltas que estão por vir. Marie Lu tem em sua manga várias cartas coringas, e ela faz questão de usar todas. Desenvolver uma história com crítica social já faz parte de sua natureza, e aqui não é diferente. A acidez da escrita é evidente, e isso reflete principalmente na personagem principal, que foge claramente da figura heróica e boazinha. 

Mas, nem por isso, Adelina é odiável. As camadas que a cobrem são muitas, e faz parte do processo descobrir seus motivos e razões de ser como é, e isso a torna uma personagem riquíssima e um ótimo objeto de interesse por parte do leitor. Acredito que neste volume veremos o ápice de seu comportamento, para o bem ou para o mal. Suas escolhas são reflexos de uma sociedade opressora, e apesar de ser uma ficção, não há como não haver uma reflexão e comparação com a realidade.

Então, ele fecha os olhos e fica estirado no chão. Seu corpo fica imóvel. Sei, sem dúvida, que ele se foi.
P. 120

Acredito que o melhor de “A Estrela da Meia-Noite”, além do ótimo desenrolar dos fatos, é a escrita de Marie Lu. Detalhada e no ponto certo, mesmo este sendo o menor dos três volumes da série, a autora consegue dar vida às palavras, criando um universo vivo e extremamente palpável, apesar da fantasia da obra. Os capítulos são devorados rapidamente e a leitura flui, até quando somos pegos de surpresa e sofremos com inesperados eventos, tais eventos que prometem chocar qualquer leitor. Se você gosta de um final alucinante, aqui você vai encontrar.

O design da capa ainda não me agrada muito, apesar do título continuar em alto-relevo, porém sem dúvidas é o melhor produto final entre todas da série. As cores são boas e combinam entre sí, e a imagem escolhida não é tão gritante quanto as demais, principalmente a do lobo e das ondas presentes na capa do volume dois, “A Sociedade da Rosa”.

Em resumo, “A Estrela da Meia-Noite” não fica para trás comparado aos demais volumes da trilogia, nem mesmo pela diferença na quantidade de páginas (o exemplar anterior tem mais ou menos 80 páginas a mais). Poder ver o desfecho de Adelina e companhia de uma forma prazerosa e satisfatória foi uma excelente surpresa, apesar de que, vindo de Marie Lu, decepção não é uma palavra que combina nem um pouco com seu trabalho. Não vejo a hora de poder desfrutar de suas próximas criações, e até lá ficarei aqui me recuperando dos baques finais dos Jovens de Elite.

– Tudo isso acabará logo – digo. – E o seu dever para com os deuses será cumprido.
P. 163
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