20 novembro, 2021


[Resenha] Incidentes na Vida de uma Escrava - Harriet Ann Jacobs

Ficha Técnica 

Título: Incidentes na Vida de uma Escrava
Título Original: Incidents in the life of a slave girl
Autor: Harriet Ann Jacobs
ISBN: 978-65-5552-520-5
Páginas: 288
Ano: 2021
Tradutor: Rayssa Galvão
Editora: Principis
A verdadeira história da luta de um indivíduo pela autoidentidade, autopreservação e liberdade, este livro permanece entre as poucas narrativas de escravas escritas por uma mulher. Um relato autobiográfico, narra a notável odisseia de Harriet Jacobs, cujo espírito destemido e a fé a levaram de uma vida de servidão e degradação na Carolina do Norte para a liberdade e o reencontro com os filhos no Norte dos Estados Unidos. Este foi um dos primeiros livros a tratar da luta pela liberdade das pessoas escravizadas, falando de abuso e assédio sexual, além da dificuldade de manterem seus papéis de mãe e mulheres.

Resenha


Hoje é celebrado o Dia de Zumbi e da Consciência Negra e, por essa razão, deixei para postar a resenha deste livro hoje. Eu nunca tinha lido uma biografia ou uma autobiografia, como é o caso aqui, mas ter a oportunidade de ler uma de uma pessoa que foi escravizada foi no mínimo doloroso.

Harriet Ann Jacobs nasceu na Carolina do Norte (embora em sua lápide haja a informação de que nasceu em 1815, sua biógrafa descobriu que nasceu em 1813) e, sendo filha de pessoas escravizadas, esta passou a ser sua condição.
Não exagerei o horror da escravidão. Muito pelo contrário: minhas descrições ficam bem aquém dos fatos.
Posição 1%
Publicada em janeiro de 1861, Incidentes na Vida de uma Escrava traz a história de vida da própria Harriet, mas como ela demorou muitos anos para enfim ter coragem de colocar parte do que viveu em um livro — assim como tempo para escrevê-lo —, ela optou por usar pseudônimos para todos os personagens envolvidos na narrativa, foi uma maneira de se proteger e aos seus familiares. Além disso, também foi descoberto depois que Harriet suavizou muito as situações do assédio e perseguição sofridos pelo pai de “sua senhora”, o doutor James Norcom, que na narrativa apenas a perseguia, mas não havia consumação do ato do estupro, o que para a gente é muito claro conhecendo a história da época — infelizmente.

Incidentes. Esta palavra me incomodou desde o início, como se as dificuldades vividas por Harriet fossem passageiras. O que não foram. Nem de longe. Nascer e ser considerada escrava apenas porque essa era a condição da mãe (era a lei determinante). Sendo mulher, sabia-se do agravante que muitas sofriam: a perseguição dos homens brancos. Caso se tornassem mães, muitas vezes seriam separadas de seus filhos, independente de qualquer coisa. Assim, ainda que Harriet se considerasse uma mulher privilegiada em muitas situações se se comparasse com outros negros escravizados, sabia que era preciso lutar por algo que era de todos: a liberdade. E ela não deveria ser comprada.
Tenho, sim, o desejo sincero de impelir as mulheres do Norte dos Estados Unidos a compreenderem um pouco da condição em que ainda vivem quase dois milhões de mulheres no Sul: presas, sofrendo o que sofri, muitas vivem horrores ainda piores. Quero somar meu testemunho ao de escritores mais capazes, porque é preciso convencer as pessoas do que é a Escravidão. Só com a experiência é que as pessoas vão compreender a intensidade, o horror e a sordidez desse abismo de abominações.
Posição 1%
Não vale eu contar muito sobre o livro aqui, afinal é uma autobiografia, mas é importante frisar como Harriet luta até o fim e que até lá não temos a sensação de que ela encontrou a felicidade plena ao conquistar a libertação, afinal teve um gosto agridoce e também se sabia que o racismo estava longe de chegar ao fim — a gente que o diga, não é mesmo?

Algumas curiosidades sobre esta obra, é que ela caiu no esquecimento com a Guerra de Secessão, que começou em abril de 1861, ou seja, poucos meses depois do lançamento do livro. Quando reencontrado, por ter sido escrito sob o pseudônimo de Linda Brent, acharam que era uma obra de ficção escrita por Lydia Maria Child ou por Harriet Beecher Stowe. Porém, nos anos 1970 a historiadora Jean Fagan Yellin desconfiou e pesquisou e estudou por seis anos até descobrir e provar que era uma autobiografia de Harriet Jacobs.

É o que tenho para trazer para vocês sobre esta obra que me deixou absurdamente impactada. Agora para finalizar, mas não menos importante, voltando ao que celebramos hoje, em 20 de novembro de 1695 Zumbi dos Palmares, o líder o maior quilombo da época colonial, era assassinado e em virtude de os historiadores terem descoberto essa data nos anos 1970 motivou membros dos movimentos negros contra discriminação racial a elegerem a figura de Zumbi como símbolo de resistência e luta dos negros e, com isso, o 20 de novembro tornou-se uma data para relembrar a luta dos negros contra a opressão no Brasil, mas o mais importante aqui é deixar claro que embora exista uma data para celebração, A LUTA É DIÁRIA!
Considerando tudo isso, por que vocês, homens e mulheres livres do Norte, continuam calados? Por que suas línguas vacilam, em vez de lutar pelo que é certo?
Posição 15%


P.S.: Se quiser adicionar esse livro na sua lista de leitura do Skoob basta clicar na capa que você será redirecionado para a página do livro no Skoob. 😉
Comentários
1
Compartilhe

16 março, 2021


[Resenha] Úrsula - Maria Firmina dos Reis

Ficha Técnica 

Título: Úrsula
Autor: Maria Firmina dos Reis
ISBN: 978-65-5552-135-1
Páginas: 176
Ano: 2020
Editora: Principis
A narrativa se articula a partir de um triângulo amoroso formado por Adelaide, Tancredo e seu pai. Esse triângulo é desfeito com a derrota de Tancredo. Cria-se, então, um segundo triângulo formado por Tancredo, Úrsula e seu tio. Mas há, também, uma tríade, formada por três personagens negros, que vão aparecendo ao longo da narrativa, cuja importância vai tomando proporções cada vez maiores: Túlio, Mãe Susana e Antero que, juntamente com o jovem Tancredo, dão o tom diferente à narrativa. Esses personagens armam uma trama incrível nos tempos de um Brasil escravocrata.

Resenha


Seguindo com minha missão de ler mais clássicos, chegou o momento de um livro nacional e nada melhor do que começar com a Maria Firmina dos Reis, considerada a primeira romancista negra brasileira. É verdade que até pouco tempo não se tinha noção da existência deste livro até que um pesquisador descobriu uma edição fac-símile em um sebo e trouxe essa obra para que todos nós tivéssemos a oportunidade de lê-la. 
Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados, que aconselham, que discutem e que corrigem; com uma instrução misérrima, apenas conhecendo a língua de seus pais, e pouco lida, o seu cabedal intelectual é quase nulo.
(…)
Não a desprezeis, antes amparei-a nos seus incertos e titubeantes passos para assim dar alento à autora de seus dias, que talvez com essa proteção cultive mais o seu engenho, e venha a produzir coisa melhor, ou, quando menos, sirva esse bom acolhimento de incentivo para outras, que com imaginação mais brilhante, com educação mais acurada, com instrução mais vasta e liberal, tenham mais timidez do que nós.
Posição 1%
Neste romance a autora nos apresenta Úrsula, uma jovem que vive sozinha com a mãe enferma na fazenda da família com poucas pessoas escravizadas. A vida dela é dedicada ao cuidado da mãe, que vive acamada, mas, como era esperado das jovens do século XIX, sonhava em se casar e constituir uma família. Mas Úrsula não é a primeira personagem que conhecemos nesta história. 

Tancredo passou por uma grande decepção amorosa e por isso acredita que não é mais possível encontrar outro amor. Provavelmente em algum momento ele se case, mas nunca mais será a mesma situação. Entretanto, em uma viagem de trabalho, fica entre a vida e a morte e é salvo por Túlio, um escravizado. Salvando o homem, Túlio o leva para a casa de sua senhora, e Úrsula passa a cuidar também deste enfermo.

Enquanto cuida de Túlio, Úrsula percebe que sente uma afeição por ele que cresce a cada dia e, Tancredo, ao se ver melhor, também sente-se encantado com a jovem. A afeição que cresceu também foi entre Tancredo e Túlio e, enquanto Tancredo é extremamente grato a Túlio por ter salvado sua vida, Túlio tem certeza de que Tancredo é uma boa pessoa e não apenas porque ele quer recompensá-lo por sua boa ação. 

Porém, enquanto Tancredo, recuperado, segue sua viagem na esperança de voltar logo para perto de Úrsula, outro personagem aparecerá para atrapalhar o romance.  
É horrível lembrar que criaturas humanas tratem a seus semelhantes assim e que não lhes doa a consciência de levá-los à sepultura asfixiados e famintos!
Posição 46%
Ainda que seja um romance da ambientado no Brasil do século XIX enquanto a escravidão era uma realidade, outros personagens se destacam nesta história: Túlio e Susana. Dois personagens negros fundamentais em Úrsula. Túlio e seu coração puro; Susana e sua história de vida, lembrando de quando era livre em sua terra natal e o que escravidão tirou dela e o que jamais conseguiria tirar. Além disso, mais importante do que um romance, é o fato de este livro ter sido escrito em uma época de escravidão por uma mulher negra e nordestina que, sabendo que dificilmente conseguiria publicar seu livro, ainda assim o escreveu e colocou, em meio ao romance, assuntos de extrema importância: o que levou os homens brancos a acreditarem que tinham direito sobre a vida dos negros? Por que tirá-los de sua terra natal e fazer deles escravos? E de onde vinha o direito do homem sobre a mulher? 
— (…) Por que o que é senhor, o que é livre, tem segura em suas mãos ambas a cadeia, que lhe oprime os pulsos, cadeia infame e rigorosa, a que chamam "escravidão"?!… E entretanto este também era livre, livre como o pássaro, como o ar; porque no seu país não se é escravo. Ele escuta a nênia plangente de seu pai, escuta a canção sentida que cai dos lábios de sua mãe, e sente como eles, que é livre; porque a razão lho diz, e a alma o compreende. Oh, a mente! Isso sim ninguém a pode escravizar! 
Posição 13%
Com certeza neste livro vocês encontrarão mais do que um romance do Brasil escravocrata; encontrarão muito o que refletir a cerca dos direitos humanos, escravidão, machismo e vejo também como uma busca pela realização de um objetivo, mesmo que lhe digam que você não pode fazer algo, afinal, quem esperava que uma mulher negra e nordestina publicasse um livro no Brasil escravocrata? Mas aqui estamos nós, no século XXI, ainda lutando pelos mesmos direitos e tendo a oportunidade de divulgar esta obra de suma importância para nossa sociedade. Um obrigada especial à diagramação que colocou Susana e Túlio na capa assim como o cavalo (que também é importante para a história), destacando o que realmente é importante aqui.  

Compre na Amazon

P.S.: Se quiser adicionar esse livro na sua lista de leitura do Skoob basta clicar na capa que você será redirecionado para a página do livro no Skoob. 😉
Comentários
0
Compartilhe

24 dezembro, 2020


[Resenha] Um Conto de Natal - Charles Dickens


Ficha Técnica 

Título: Um Conto de Natal
Título Original: A Christmas Carol
Autor: Charles Dickens
ISBN: 978-85-943-1877-0
Páginas: 96
Ano: 2019
Tradutor: Silvio Antunha
Editora: Principis
Scrooge trabalha em um escritório em Londres com o seu empregado Bob Cratchit, pai de três filhos e do pequeno Tim, que tem problemas nas penas. Na véspera do Natal, enquanto todos preparavam-se para a celebração, Scrooge, um homem avarento que domina o Natal, não via razão para tanta alegria. Até que recebe a vista do fantasma do seu falecido sócio, que se arrependeu de não ter sido bom e nem generoso em vida e acha que Scrooge tem uma chance. Segundo o fantasma, Scrooge receberá a vista de três fantasmas, que o levarão a uma viagem pelo presente, passado e futuro, para tentar salvá-lo enquanto é tempo.

Resenha


Meu primeiro contato com a escrita do Charles Dickens foi com Um Conto de Natal e nada melhor do que esse livro nesta época, não é mesmo? Ele foi o escolhido para ser o livro do clube de dezembro e que maravilha foi ler essa história. Ainda que tenhamos diversos filmes sobre a história de Ebenezer Scrooge, ler sempre traz uma emoção diferente. 

Ebenezer Scrooge é um homem ranzinza que vive para trabalhar. Sua única família é um sobrinho, com quem ele não faz a menor questão de conviver, no seu escritório tem apenas um funcionário, Bob Cratchit, a quem ele paga um salário irrisório e mal permite que ele use carvão na lareira para se esquentar, mesmo que o inverno esteja rigoroso ou que seja véspera de Natal. Ele é tão mal humorado que as pessoas passam por ele na rua e sequer olham para ele, vai que mau humor e avareza pega, não é mesmo? O pior é que ele nem vive no luxo, ele simplesmente não gasta dinheiro com nada, apenas guarda — para que? I have no idea
— Feliz Natal! Deus o abençoe, tio! —  uma voz alegre exclamou.
Era o sobrinho de Scrooge, que entrou tão rapidamente que esse foi o primeiro sinal que ele teve de sua chegada.
— Bolas! — Scrooge rosnou. — Bobagem.
(…)
— O Natal é bobagem? — o sobrinho de Scrooge estranhou. —  Tem certeza de que está dizendo isso?
— Tenho! — Scrooge prosseguiu. — Feliz Natal... Que direito você tem de ser feliz? Que motivo você tem para ser feliz? Você não passa de um pobretão.
— Muito bem! — o sobrinho retrucou alegre, sem se abalar. — Que direito o senhor tem de ser triste? Que razão tem para ser rabugento? O senhor é muitíssimo rico.
Sem ter melhor resposta pronta para retrucar ao impulso do momento. Scrooge repetiu "bah", seguido de "bobagem".
— Não fique zangado, tio! — o sobrinho emendou.
— Como eu não poderia ficar, quando vivo num mundo de tolos como você? — revidou o tio. — "Feliz Natal"! Fora com essa história de "Feliz Natal"! O que é a época do Natal para você senão a hora de fazer despesas sem ter dinheiro para pagar as suas contas?
Posição 5%
O que Scrooge não imaginava era que ele, um homem prático, receberia a visita do espírito do seu sócio falecido há sete anos na véspera de Natal e ainda por cima para lhe dizer como a vida pós-morte é difícil para ele e vários outros espíritos presos na Terra por causa de suas atitudes durante a vida, entretanto, a missão dele naquele momento era avisar para Scrooge que ele teria uma chance de mudar seu destino, recebendo a visita de três outros espíritos: o espírito do Natal passado, o espírito do Natal presente e o espírito do Natal futuro. 

Claro que Scrooge achou que tudo era um delírio de sua mente, mas lá vieram os fantasmas na hora marcada e assim começou sua jornada. Primeiro Scrooge vai ao passado e temos a oportunidade de perceber um pouco de sua infância, adolescência e juventude e perceber que ele nem sempre foi ranzinza como é atualmente e muito menos menosprezava o espírito natalino que acomete muitas pessoas nessa época do ano. Ao acompanhar o fantasma do Natal presente, terá a chance de visitar a casa de seu funcionário e de a casa de seu sobrinho e ver como eles estão passando a véspera de Natal, completamente diferente da sua, sozinho em uma casa abandonada. E ao acompanhar o Natal futuro vem a percepção de como será sua vida caso continue no mesmo caminho que tem traçado para si. 
— Fantasma do Futuro! —  ele exclamou. —  Eu tenho mais medo de você do que de qualquer outro espectro que já tenha visto. Mas como sei que seu propósito é me fazer o bem e como espero viver para ser um homem diferente do que fui, estou preparado para lhe fazer companhia e de coração agradecido. 
Posição 74%
Não preciso me aprofundar aqui pois tenho certeza de que todo mundo ao menos em algum momento da vida com certeza assistiu alguma adaptação desse conto escrito magistralmente por Dickens, tanto que as adaptações cinematográficas de fato são muito fiéis, o que me leva a crer que o conto é tão completo que não precisa de alterações. Também tenho que dizer como essa leitura me levou a refletir sobre mim, sobre meu passado, presente e futuro e acredito que era exatamente esse o objetivo dele enquanto escrevia. Ainda que a história nos mostre que Dickens escreveu esse livro em aproximadamente um mês para pagar dívidas, não foi menos trabalhado no ponto de vista de conteúdo. Dos nomes dos personagens que refletem suas personalidades ao conteúdo da história em si. O personagem é tão característico que serviu de inspiração para a criação de outro personagem: Scrooge McDuck, conhecem? Sem dúvida todos conhecem o Tio Patinhas, não é mesmo?

Enquanto discutíamos no clube sobre o livro, ainda que ele não seja o protagonista, um personagem que sobressaiu foi Fred, o sobrinho de Scrooge, que ano após ano visita o tio na véspera de Natal e o convida para a ceia em sua casa, mas sempre sendo rechaçado. Sejam como o Fred, pois, acima da troca de presentes, a época do Natal é o momento de lembrarmos o nascimento de Cristo, é o momento de estar em família, seja ela de sangue, de coração ou ambos, e, com a pandemia que estamos vivendo muitos não poderão estar fisicamente presentes, como é o meu caso, então, espero que pelo menos possam fazer como eu, façam uma videochamada e compartilhem esse momento com as pessoas que são especiais para vocês. Para aqueles que sofreram perdas na família, entendo perfeitamente que é difícil demais esse momento, mas digo para vocês que, os anos em que deixamos de comemorar o Natal em casa após a morte das minhas avós (que faleceram no mesmo ano em um intervalo de dois meses) foi difícil, mas percebemos que havíamos deixado de fazer algo que elas gostavam: reunir a família e compartilhar todas as conquistas que tínhamos alcançado, estarmos com saúde, juntos e dando suporte uns aos outros. 

Então, à todos, Feliz Natal!


P.S.: Se quiser adicionar esse livro na sua lista de leitura do Skoob basta clicar na capa que você será redirecionado para a página do livro no Skoob. 😉 
Comentários
0
Compartilhe

16 novembro, 2020


[Resenha] A Máquina do Tempo - H. G. Wells


Ficha Técnica 

Título: A Máquina do Tempo
Título Original: The time machine
Autor: H.G. Wells
ISBN: 978-65-5552-002-6
Páginas: 112
Ano: 2020
Tradutor: Luisa Facincani
Editora: Principis
Um cientista londrino viaja, a bordo de uma Máquina do Tempo, do século XIX para o ano de 802.701. Chegando no que seria a Londres do futuro, o Viajante do Tempo encontra duas espécies que evoluíram do ser humano: os Eloi, que viviam na superfície, e os Morlocks, que se escondiam da luz no subterrâneo. O Mundo Superior era habitado por seres frívolos, delicados e infantis que estavam prestes a conhecer a sua Nêmesis, resultado de decisões tomadas no passado. O Viajante do Tempo perde a sua Máquina do Tempo e com apenas uma caixa de fósforos, se pergunta se conseguirá retornar ao presente.

Resenha


H. G. Wells é conhecido como o pai da Ficção Científica, afinal, seu primeiro romance escrito foi A Máquina do Tempo, que inspira até hoje muitos livros, filmes e teorias relativas a viagem no tempo. 

Neste livro, publicado em 1895, Wells apresenta o Viajante do Tempo, um cientista que vive em Londres no século XIX e que busca provar a existência da quarta dimensão e da possibilidade de o homem viajar através dela, para o futuro ou passado. 

O narrador desta história, não identificado, está em uma reunião na casa do Viajante com outros personagens (o Médico, o Psicólogo, o Prefeito Provincial) quando o Viajante explica a quarta dimensão e a possibilidade da viagem no tempo, com uma demonstração em pequena escala. Claro que, por mais que cientificamente sua explicação seja plausível, gera desconfiança nos personagens presentes, pela possibilidade e pessoa do Viajante, que tem fama de não ser tão confiável (ainda que isso não seja muito explicado). 

Na sequência, o Viajante havia marcado outra reunião em sua casa, mas, chegando atrasado, seus convidados (alguns que estiveram na primeira reunião e outros novos) são surpreendidos pela forma com que ele aparece para recebê-los: descalço, sujo, cansado e abatido. A surpresa surge depois da refeição quando, recomposto, o Viajante narra sua viagem ao ano de 802701, um futuro completamente diferente do que ele imaginava. 

No futuro descrito o Viajante encontra duas variações da raça humana: os Elois e os Morlocks. Os Elois são as primeiras criaturas com quem tem contato, são figuras que vivem na superfície e que têm traços muito similares entre homens e mulheres, o que torna difícil sua distinção sem uma cuidadosa avaliação, possuem cabelos cacheados de maneira uniforme, sem pelos no rosto, orelhas e bocas pequenas, queixos finos e pontudos e olhos grandes e suaves. Depois ele descobre a presença dos Morlocks, que vivem nos subterrâneos e, por estarem adaptados a viver no escuro, possuem a pele descolorida, olhos grandes com retinas muito sensíveis a luz. 

Neste futuro extremamente distante, Wells mostra uma sociedade que já passou pelo seu apogeu e agora vive a decadência, afinal, depois de ter conquistado tudo o que poderia ser esperado, a humanidade deixou de buscar, de evoluir. Claro que tudo o que sabemos sobre a Terra de 802701 (e esse possível apogeu) é baseado nas suposições que o Viajante faz enquanto está lá, pois não existem mais livros, não há tecnologia, fogo, nem outras coisas que imaginaríamos que existiriam no futuro. 

Depois da primeira noite, o Viajante "perde" sua máquina e aqui entra a problemática de descobrir onde está e como recuperá-la, ou mesmo buscar os meios para construir uma nova para retornar ao seu tempo. 
Não há inteligência onde não há mudanças ou necessidade de mudanças. Apenas animais que enfrentam uma grande variedade de necessidades e perigos precisam de inteligência.
Da maneira como vejo, o homem do Mundo Superior focou-se em sua frágil beleza, e o Mundo Subterrâneo, em uma mera indústria mecânica. Porém aquele perfeito estado não dispunha de uma coisa essencial para a perfeição mecânica: estabilidade total. 
Posição 85%
Ao contrário do início do livro, onde há muito embasamento científico e é bem descrito, o decorrer da história se mostra superficial, corriqueiro e simples. Mas, sendo esse o primeiro romance de Wells, que antes disso escrevia textos científicos sobre biologia em revistas acadêmicas, acredito que este possa ser o motivo desta superficialidade. Também posso relacionar que essa impressão que o livro deixa na verdade é causada pelo nosso repertório de viagem no tempo, afinal muitos de nós já assistimos diversos filmes, séries, desenhos animados, lemos livros com esse tema e/ou que possuam uma problemática com esse tema (De Volta Para o Futuro, Vingadores, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban são apenas alguns exemplos), então buscamos algo similar aqui. 

Acredito que seja muito válido ler este livro, afinal, é a base de muitos sobre o tema e nada melhor do que conhecer a origem, não é mesmo? Não dá para simplesmente comparar com o que temos hoje em dia sendo que o livro foi publicado há 125 anos, concordam? 


P.S.: Se quiser adicionar esse livro na sua lista de leitura do Skoob basta clicar na capa que você será redirecionado para a página do livro no Skoob. 😉 
Comentários
0
Compartilhe

09 maio, 2020


[Resenha] A Metamorfose - Franz Kafka

Ficha Técnica 

Título: A Metamorfose
Título Original: Die Verwandlung
Autor: Franz Kafka
ISBN: 978-85-943-1878-7
Páginas: 96
Ano: 2019
Tradutor: Luiz A. de Araújo
Editora: Principis
O caixeiro-viajante Gregor acorda metamorfoseado em um enorme inseto e percebe que tudo mudou e não só em sua vida, mas no mundo. Ele, então, acompanha as reações de sua família ao perceberem o estranho ser em que ele se tornou. E, enquanto luta para se manter vivo, reflete sobre o comportamento de seus pais, de sua irmã e sobre a sua nova vida.






Resenha

Ler um clássico não é algo fácil para mim. Durante muito tempo criei resistência por conta de alguns títulos que tentei ler, mas não consegui. Até hoje, os únicos livros que não concluí eram clássicos. Entretanto, como mencionei na resenha de A Dama de Espadas, entrei em um clube do livro que me deu o empurrão que eu precisava. E aqui estou no segundo livro do clube, A Metamorfose, a novela mais célebre do escritor Franz Kafka, reconhecido como um dos mais influentes do século XX.

Gregor Samsa é um caixeiro-viajante que odeia o trabalho que tem, mas nem por isso deixa de fazê-lo. Desde que o negócio de seu pai quebrou e deixou a família com uma enorme dívida, Gregor foi até o credor de seu pai para trabalhar para ele e saldar a dívida e ter dinheiro para levar para casa. Mas essa novela começa na manhã em que Gregor, depois de uma noite com sonhos agitados, se vê atrasado para o trabalho e transformado em um inseto gigante e monstruoso. Sim! Mas o pior é que Gregor não parece preocupado com sua transformação e sim com seu atraso para o trabalho e nas consequências que isso traria para sua família.

Com esse clímax na primeira página, em seguida, com uma narrativa em terceira pessoa, vemos o que a metamorfose de Gregor faz com ele e sua família. Enquanto passa a viver exilado em seu quarto, ele percebe que sua família também é obrigada a mudar, uma vez que ele não é mais o provedor do sustento da casa: seu pai, que desde que perdeu o negócio há cinco anos nunca mais trabalhou e engordou; sua mãe com problemas respiratórios que não conseguia fazer grandes esforços sem passar mal; e sua irmã caçula, de dezessete anos, que só estudava, tocava violino e ajudava em pequenas tarefas em casa algumas vezes. Todos precisam mudar.

Ainda transformado em inseto, Gregor continua preocupado com o sustento da família, não se pergunta como aconteceu e se poderia ser revertido e isso me angustiou, essa “aceitação” da transformação, mas se formos mais fundo, veremos que ele se transformou em algo que não era no momento que assumiu a dívida do pai e mudou todo o curso de sua vida: sem tempo para viver propriamente, apenas viajando a trabalho, noite e dia, para conseguir boas vendas, comissão e assim abater muito da dívida, colocar o alimento em casa e suprir outras necessidades.

Também me angustiou ver a reação da família com Gregor, com o que aconteceu com ele e me fez pensar em como são nossas relações com nossos familiares, com nossos amigos, como somos capazes de mudar quando algo não está de acordo com o que acreditamos — mudamos ou essa sempre foi nossa verdadeira atitude?

A Metamorfose tem uma narrativa direta, sem floreios e vai fundo na alma humana. Sinceramente, ainda bem que são apenas 96 páginas, porque, o que mais seria desnudado por Kafka se continuasse por mais páginas? Certamente essa leitura traz muitas reflexões e percebi que é um daqueles livros que lemos várias e várias vezes e sempre nos fará refletir novamente e com novas observações todas as vezes.


P.S.: Se quiser adicionar esse livro na sua lista de leitura do Skoob basta clicar na capa que você será redirecionado para a página do livro no Skoob. 😉
Comentários
4
Compartilhe

04 abril, 2020


[Resenha] A Dama de Espadas - Alexandre Pushkin

Ficha Técnica 

Título: A Dama de Espadas
Título Original: Pikóvaia Dama
Autor: Alexandre Pushkin
ISBN: 978-85-943-1873-2
Páginas: 80
Ano: 2019
Tradutor: Irineu Perpetuo
Editora: Ciranda Cultural (Selo Principis)
Em uma roda de amigos em volta de uma mesa de baralho, a história da condessa *** e do seu misterioso segredo para vencer no jogo de cartas vem à tona e desperta a curiosidade do ambicioso Hermann. Ele então põe em prática seu plano para descobrir o mistério, mas mal pode imaginar com o que vai se deparar.








Resenha


Já faz algum tempo que pretendo entrar no mundo dos livros clássicos, mas para mim não é nada fácil. Acredito que o tempo da escola criou uma resistência em mim que perpetua até hoje. Por isso, quando recebi o convite para participar de um clube do livro no trabalho, onde o objetivo é ler principalmente os clássicos, topei na hora. Esse é o empurrão que eu precisava.

Para iniciar, o desafio foi ler A Dama de Espadas, do poeta russo Alexandre Pushkin, um livro curto, de contos, mas confesso, sequer havia ouvido falar no poeta, e olha que pelo que eu li, ele é bem importante para a literatura russa.

Ambientada em São Petesburgo, iniciamos a história após uma partida de jogo de cartas entre amigos, onde os jovens estão desfrutando da companhia juntos e das perdas e ganhos de cada um. Entre os personagens, está o dono da casa, Narúmov (que é militar, cavaleiro da guarda), Súrin (que sempre perde nos jogos, mas ainda assim, sempre tenta a sorte), Hermann (descendente de alemães russificados, que nunca joga, mas está sempre presente) e Paul Tómski, que traz à tona uma curiosidade: por que sua avó nunca foi ao jogo deles para apostar?

Claro que a pergunta desperta a curiosidade de todos, afinal, que razão uma condessa de 87 anos teria para ir à uma mesa de jogos apostar com os jovens?
— O quê? — disse Narúmov. — Você tem uma avó que adivinha três cartas na sequência, e até agora não extraiu essa cabalística dela?
P. 18
Contando rapidamente aos amigos o motivo de seu questionamento, a curiosidade se instala principalmente em Hermann, que sempre ficou ali no canto, observando enquanto os outros jogavam e nos deixa com a pulga atrás da orelha sobre quais são suas reais intenções em estar sempre presente nesses jogos, e não jogar. Seria ele um jogador de alma, mas tímido em arriscar o pouco que tinha para o essencial, sem a certeza de que ganharia? Então se descobrisse o segredo da condessa, poderia ele ficar tranquilo na vida?

Enquanto as páginas passam, mas a gente fica intrigado com os passos de Hermann. Também é possível conhecer o outro lado da história, com personagens que estão ao lado da condessa, que,  pelo pouco que conheci, não gostei, pois mostrou como ela era egoísta, mimada e avarenta - pobre da Lizavieta Ivánovna, sua pupila, que precisava conviver constantemente com a mulher.

Como escrevi inicialmente, não tenho costume de ler esse tipo de narrativa, então me peguei questionando porque inicialmente é citado o nome da condessa e nos demais capítulos do livro ela aparece sempre como condessa ***, assim como em outras situações o asterisco é usado quando já sabemos de quem se trata, como na casa de quem estavam jogando cartas. Não sei dizer como me sinto tendo terminado esse livro; diferente do que estou acostumada, a história é intrigante, mas talvez o fato de ser um conto, seja pouco para o que poderia ter sido. Fiquei querendo mais detalhes sobre os personagens e sabia que não os teria em tão poucas páginas.

Independente, adorei me aventurar e certamente vocês verão outras resenhas de clássicos por aqui em breve, pois pretendo seguir com esse desafio. Quem sabe não descubro "novos" autores para gostar, não é mesmo?

Compre na Amazon

P.S.: Se quiser adicionar esse livro na sua lista de leitura do Skoob basta clicar na capa que você será redirecionado para a página do livro no Skoob. 😉
Comentários
2
Compartilhe
 
imagem-logo
De Tudo um Pouquinho - Copyright © 2016 - Todos os direitos reservados.
Layout e Programação HR Criações