20 novembro, 2021


[Resenha] Incidentes na Vida de uma Escrava - Harriet Ann Jacobs

Ficha Técnica 

Título: Incidentes na Vida de uma Escrava
Título Original: Incidents in the life of a slave girl
Autor: Harriet Ann Jacobs
ISBN: 978-65-5552-520-5
Páginas: 288
Ano: 2021
Tradutor: Rayssa Galvão
Editora: Principis
A verdadeira história da luta de um indivíduo pela autoidentidade, autopreservação e liberdade, este livro permanece entre as poucas narrativas de escravas escritas por uma mulher. Um relato autobiográfico, narra a notável odisseia de Harriet Jacobs, cujo espírito destemido e a fé a levaram de uma vida de servidão e degradação na Carolina do Norte para a liberdade e o reencontro com os filhos no Norte dos Estados Unidos. Este foi um dos primeiros livros a tratar da luta pela liberdade das pessoas escravizadas, falando de abuso e assédio sexual, além da dificuldade de manterem seus papéis de mãe e mulheres.

Resenha


Hoje é celebrado o Dia de Zumbi e da Consciência Negra e, por essa razão, deixei para postar a resenha deste livro hoje. Eu nunca tinha lido uma biografia ou uma autobiografia, como é o caso aqui, mas ter a oportunidade de ler uma de uma pessoa que foi escravizada foi no mínimo doloroso.

Harriet Ann Jacobs nasceu na Carolina do Norte (embora em sua lápide haja a informação de que nasceu em 1815, sua biógrafa descobriu que nasceu em 1813) e, sendo filha de pessoas escravizadas, esta passou a ser sua condição.
Não exagerei o horror da escravidão. Muito pelo contrário: minhas descrições ficam bem aquém dos fatos.
Posição 1%
Publicada em janeiro de 1861, Incidentes na Vida de uma Escrava traz a história de vida da própria Harriet, mas como ela demorou muitos anos para enfim ter coragem de colocar parte do que viveu em um livro — assim como tempo para escrevê-lo —, ela optou por usar pseudônimos para todos os personagens envolvidos na narrativa, foi uma maneira de se proteger e aos seus familiares. Além disso, também foi descoberto depois que Harriet suavizou muito as situações do assédio e perseguição sofridos pelo pai de “sua senhora”, o doutor James Norcom, que na narrativa apenas a perseguia, mas não havia consumação do ato do estupro, o que para a gente é muito claro conhecendo a história da época — infelizmente.

Incidentes. Esta palavra me incomodou desde o início, como se as dificuldades vividas por Harriet fossem passageiras. O que não foram. Nem de longe. Nascer e ser considerada escrava apenas porque essa era a condição da mãe (era a lei determinante). Sendo mulher, sabia-se do agravante que muitas sofriam: a perseguição dos homens brancos. Caso se tornassem mães, muitas vezes seriam separadas de seus filhos, independente de qualquer coisa. Assim, ainda que Harriet se considerasse uma mulher privilegiada em muitas situações se se comparasse com outros negros escravizados, sabia que era preciso lutar por algo que era de todos: a liberdade. E ela não deveria ser comprada.
Tenho, sim, o desejo sincero de impelir as mulheres do Norte dos Estados Unidos a compreenderem um pouco da condição em que ainda vivem quase dois milhões de mulheres no Sul: presas, sofrendo o que sofri, muitas vivem horrores ainda piores. Quero somar meu testemunho ao de escritores mais capazes, porque é preciso convencer as pessoas do que é a Escravidão. Só com a experiência é que as pessoas vão compreender a intensidade, o horror e a sordidez desse abismo de abominações.
Posição 1%
Não vale eu contar muito sobre o livro aqui, afinal é uma autobiografia, mas é importante frisar como Harriet luta até o fim e que até lá não temos a sensação de que ela encontrou a felicidade plena ao conquistar a libertação, afinal teve um gosto agridoce e também se sabia que o racismo estava longe de chegar ao fim — a gente que o diga, não é mesmo?

Algumas curiosidades sobre esta obra, é que ela caiu no esquecimento com a Guerra de Secessão, que começou em abril de 1861, ou seja, poucos meses depois do lançamento do livro. Quando reencontrado, por ter sido escrito sob o pseudônimo de Linda Brent, acharam que era uma obra de ficção escrita por Lydia Maria Child ou por Harriet Beecher Stowe. Porém, nos anos 1970 a historiadora Jean Fagan Yellin desconfiou e pesquisou e estudou por seis anos até descobrir e provar que era uma autobiografia de Harriet Jacobs.

É o que tenho para trazer para vocês sobre esta obra que me deixou absurdamente impactada. Agora para finalizar, mas não menos importante, voltando ao que celebramos hoje, em 20 de novembro de 1695 Zumbi dos Palmares, o líder o maior quilombo da época colonial, era assassinado e em virtude de os historiadores terem descoberto essa data nos anos 1970 motivou membros dos movimentos negros contra discriminação racial a elegerem a figura de Zumbi como símbolo de resistência e luta dos negros e, com isso, o 20 de novembro tornou-se uma data para relembrar a luta dos negros contra a opressão no Brasil, mas o mais importante aqui é deixar claro que embora exista uma data para celebração, A LUTA É DIÁRIA!
Considerando tudo isso, por que vocês, homens e mulheres livres do Norte, continuam calados? Por que suas línguas vacilam, em vez de lutar pelo que é certo?
Posição 15%


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16 março, 2021


[Resenha] Úrsula - Maria Firmina dos Reis

Ficha Técnica 

Título: Úrsula
Autor: Maria Firmina dos Reis
ISBN: 978-65-5552-135-1
Páginas: 176
Ano: 2020
Editora: Principis
A narrativa se articula a partir de um triângulo amoroso formado por Adelaide, Tancredo e seu pai. Esse triângulo é desfeito com a derrota de Tancredo. Cria-se, então, um segundo triângulo formado por Tancredo, Úrsula e seu tio. Mas há, também, uma tríade, formada por três personagens negros, que vão aparecendo ao longo da narrativa, cuja importância vai tomando proporções cada vez maiores: Túlio, Mãe Susana e Antero que, juntamente com o jovem Tancredo, dão o tom diferente à narrativa. Esses personagens armam uma trama incrível nos tempos de um Brasil escravocrata.

Resenha


Seguindo com minha missão de ler mais clássicos, chegou o momento de um livro nacional e nada melhor do que começar com a Maria Firmina dos Reis, considerada a primeira romancista negra brasileira. É verdade que até pouco tempo não se tinha noção da existência deste livro até que um pesquisador descobriu uma edição fac-símile em um sebo e trouxe essa obra para que todos nós tivéssemos a oportunidade de lê-la. 
Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados, que aconselham, que discutem e que corrigem; com uma instrução misérrima, apenas conhecendo a língua de seus pais, e pouco lida, o seu cabedal intelectual é quase nulo.
(…)
Não a desprezeis, antes amparei-a nos seus incertos e titubeantes passos para assim dar alento à autora de seus dias, que talvez com essa proteção cultive mais o seu engenho, e venha a produzir coisa melhor, ou, quando menos, sirva esse bom acolhimento de incentivo para outras, que com imaginação mais brilhante, com educação mais acurada, com instrução mais vasta e liberal, tenham mais timidez do que nós.
Posição 1%
Neste romance a autora nos apresenta Úrsula, uma jovem que vive sozinha com a mãe enferma na fazenda da família com poucas pessoas escravizadas. A vida dela é dedicada ao cuidado da mãe, que vive acamada, mas, como era esperado das jovens do século XIX, sonhava em se casar e constituir uma família. Mas Úrsula não é a primeira personagem que conhecemos nesta história. 

Tancredo passou por uma grande decepção amorosa e por isso acredita que não é mais possível encontrar outro amor. Provavelmente em algum momento ele se case, mas nunca mais será a mesma situação. Entretanto, em uma viagem de trabalho, fica entre a vida e a morte e é salvo por Túlio, um escravizado. Salvando o homem, Túlio o leva para a casa de sua senhora, e Úrsula passa a cuidar também deste enfermo.

Enquanto cuida de Túlio, Úrsula percebe que sente uma afeição por ele que cresce a cada dia e, Tancredo, ao se ver melhor, também sente-se encantado com a jovem. A afeição que cresceu também foi entre Tancredo e Túlio e, enquanto Tancredo é extremamente grato a Túlio por ter salvado sua vida, Túlio tem certeza de que Tancredo é uma boa pessoa e não apenas porque ele quer recompensá-lo por sua boa ação. 

Porém, enquanto Tancredo, recuperado, segue sua viagem na esperança de voltar logo para perto de Úrsula, outro personagem aparecerá para atrapalhar o romance.  
É horrível lembrar que criaturas humanas tratem a seus semelhantes assim e que não lhes doa a consciência de levá-los à sepultura asfixiados e famintos!
Posição 46%
Ainda que seja um romance da ambientado no Brasil do século XIX enquanto a escravidão era uma realidade, outros personagens se destacam nesta história: Túlio e Susana. Dois personagens negros fundamentais em Úrsula. Túlio e seu coração puro; Susana e sua história de vida, lembrando de quando era livre em sua terra natal e o que escravidão tirou dela e o que jamais conseguiria tirar. Além disso, mais importante do que um romance, é o fato de este livro ter sido escrito em uma época de escravidão por uma mulher negra e nordestina que, sabendo que dificilmente conseguiria publicar seu livro, ainda assim o escreveu e colocou, em meio ao romance, assuntos de extrema importância: o que levou os homens brancos a acreditarem que tinham direito sobre a vida dos negros? Por que tirá-los de sua terra natal e fazer deles escravos? E de onde vinha o direito do homem sobre a mulher? 
— (…) Por que o que é senhor, o que é livre, tem segura em suas mãos ambas a cadeia, que lhe oprime os pulsos, cadeia infame e rigorosa, a que chamam "escravidão"?!… E entretanto este também era livre, livre como o pássaro, como o ar; porque no seu país não se é escravo. Ele escuta a nênia plangente de seu pai, escuta a canção sentida que cai dos lábios de sua mãe, e sente como eles, que é livre; porque a razão lho diz, e a alma o compreende. Oh, a mente! Isso sim ninguém a pode escravizar! 
Posição 13%
Com certeza neste livro vocês encontrarão mais do que um romance do Brasil escravocrata; encontrarão muito o que refletir a cerca dos direitos humanos, escravidão, machismo e vejo também como uma busca pela realização de um objetivo, mesmo que lhe digam que você não pode fazer algo, afinal, quem esperava que uma mulher negra e nordestina publicasse um livro no Brasil escravocrata? Mas aqui estamos nós, no século XXI, ainda lutando pelos mesmos direitos e tendo a oportunidade de divulgar esta obra de suma importância para nossa sociedade. Um obrigada especial à diagramação que colocou Susana e Túlio na capa assim como o cavalo (que também é importante para a história), destacando o que realmente é importante aqui.  

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