04 novembro, 2018


[Resenha] A Namorada Ideal - Michelle Frances

Ficha Técnica 

Título: A Namorada Ideal
Título Original: The Girlfriend
Autor: Michelle Frances
ISBN: 978-85-8246-753-4
Páginas: 448
Ano: 2018
Tradutor: Marcia Blasques
Editora: Astral Cultural
Uma garota. Um garoto. A mãe dele. E a mentira que ela desejará nunca ter contado. O quão longe você iria para proteger seu filho? Laura tem uma vida perfeita: carreira de sucesso e um casamento feliz e duradouro com um marido rico. Além disso, Daniel, seu filho de vinte e três anos, é um jovem gentil e muito bonito. Um dia, Daniel conhece Cherry, uma garota inteligente que, infelizmente, não teve a vida que gostaria ter tido. Ela quer a vida de Laura. Quando uma tragédia acontece, uma decisão é tomada em um ato de desespero e uma mentira terrível é contada, tão terrível que mudará a vida de todos para sempre.

Resenha

Daniel retornou para casa após anos fazendo faculdade de medicina, porém, a estadia na residência de seus pais não vai ser longa, pois o jovem de 23 anos está decidido a encontrar um lar para chamar de seu. Enquanto procura sua nova morada, Daniel conhece Cherry, e instantaneamente os dois percebem que possuem muitas coisas em comum.

Mas Laura, a mãe de Daniel, não vai muito com a cara da nova namorada de seu único filho. Aos olhos de Laura, Cherry é mais uma interesseira atrás de usufruir das conquistas de Daniel. Não escondendo de ninguém que não vai com a cara da menina, Laura fará tudo ao seu alcance para que os dois não fiquem juntos, sem perceber que suas ações podem acabar afastando também o seu filho.

– Deixe-o em paz. Só porque, pela primeira vez na vida do rapaz, você não sabe cada detalhe. Não interfira.
– Não estou interferindo – ela falou baixinho. De repente, quis deixar o aposento. Colocou o guardanapo sobre a mesa e se levantou. Estava prestes a levar seu prato para a cozinha quando…
– Você é obsessiva – era um rompante súbito –, possessiva.
Ela parou, mortificada.
P. 28

“A Namorada Ideal” é um romance psicológico escrito pela autora Michelle Frances. A narrativa fica a cargo de um narrador onisciente, podendo assim o leitor acompanhar os fatos tanto através dos passos de Laura, como também de Cherry. Os capítulos são curtinhos, e todos eles trazem um dia e uma data, onde iremos notar a cronologia dos fatos e como eles são desenvolvidos em relação ao tempo.

Nunca tinha lido algum trabalho de Michelle, que no passado trabalhou como produtora e editora de cinema e TV, porém fiquei satisfeito em boa parte de sua escrita. Os capítulos são relativamente curtos, as personagens são bem desenvolvidas e cheias de nuances e o enredo é intrigante. Mas, talvez, a história promete mais do que cumpre, deixando mil possibilidades em aberto, e optando por ficar em um local seguro, ao invés de ousar.

E estava acabado; estava, ela lembrou a si mesma mais tarde. Não só Cherry, mas o que acontecera com ela. A pessoa que se tornara, a quem, olhando para trás, não reconhecia. Era como se outra pessoa tivesse feito aquelas coisas, e isso a assustava, a extensão do que fizera.
P. 277

Quando se lê a sinopse do livro, você espera muitas reviravoltas e confusão entre Laura e Cherry, e de fato isto acontece, apesar de que por mais de metade da leitura tal embate é velado e extremamente cauteloso. Até que “a tal mentira” citada pela sinopse aconteça, muitas páginas precisam ser lidas, e mesmo assim, a autora opta por terminar a obra quando as coisas estão pegando fogo. Acredito que o início poderia ter sido mais enxuto, para o plot principal ter mais foco no contexto geral.

Ou seja, Frances constrói toda sua obra em cima de uma rixa entre sogra e nora, mas tal briga demora de decolar. Quando as personagens jogam tudo pro alto e decidem levantar suas armas uma contra a outra, chega o final do livro, este com um desfecho morno, simplório e decepcionante, pois tenta ser algo grandioso e surpreendente, quando de fato não é. De qualquer forma, a dúvida sobre se Laura é uma mãe super protetora e ciumenta; ou se Cherry de fato é a namorada dissimulada e interesseira, é intrigante e prende a leitura. 

– Ah, Moisés, fiz algo realmente… horrível.
E fizera. Tinha começado tudo aquilo ao contar aquela mentira monstruosa.
P. 303

Apesar de seus problemas, fiz a leitura de forma bastante rápida, pois como disse, o livro tem pontos positivos e a escrita é agradável. Eu particularmente esperava mais drama psicológico, mais carga e energia nas intenções de cada lado da história, para que o leitor pudesse ficar confuso e dividido sobre de que lado da narrativa gostaria de acreditar e defender. Como isso aconteceu de uma forma branda, restou usufruir da leitura que prometia ser um leão, mas que mostrou ser um gatinho. 

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19 abril, 2017


[Resenha] Quem Era Ela - JP Delaney

Ficha Técnica 

Título: Quem Era Ela
Título Original: The Girl Before
Autor: JP Delaney
ISBN: 978-85-510-0139-4
Páginas: 336
Ano: 2017
Tradutor: Alexandre Raposo
Editora: Intrínseca
É preciso responder a uma série de perguntas, passar por um criterioso processo de seleção e se comprometer a seguir inúmeras regras para morar no nº 1 da Folgate Street, uma casa linda e minimalista, obra-prima da arquitetura em Londres. Mas há um preço a se pagar para viver no lugar perfeito. Mesmo em condições tão peculiares, a casa atrai inúmeros interessados, entre eles Jane, uma mulher que, depois de uma terrível perda, busca um ponto de recomeço. Jane é incapaz de resistir aos encantos da casa, mas pouco depois de se mudar descobre a morte trágica da inquilina anterior. Há muitos segredos por trás daquelas paredes claras e imaculadas. Com tantas regras a cumprir, tantos fatos estranhos acontecendo ao seu redor e uma sensação constante de estar sendo observada, o que parecia um ambiente tranquilo na verdade se mostra ameaçador. Enquanto tenta descobrir quem era aquela mulher que habitou o mesmo espaço que o seu, Jane vê sua vida se entrelaçar à da outra garota e sente que precisa se apressar para descobrir a verdade ou corre o risco de ter o mesmo destino. Com um suspense de tirar o fôlego e um clima de tensão do início ao fim, JP Delaney constrói um thriller brilhante repleto de reviravoltas até a última página. Uma história de duplicidade, morte e mentiras.

Resenha


Fazia muito tempo que eu não lia um thriller, não é um estilo literário que me atraia muito, quem me conhece sabe que eu prefiro um bom romance e ótimas risadas com chick-lits, mas a campanha de divulgação da Intrínseca me deixou absolutamente curiosa com seu novo livro.



Além disso, tivemos que responder um questionário e sabíamos que apenas alguns receberiam esse livro. Curiosa? Curiosa é pouco. Edward Monkford é um brilhante e excêntrico arquiteto inglês que projetou, entre outros, Folgate Street, nº 1, uma casa minimalista e completamente diferente do que qualquer um estaria acostumado.

Alternando uma narrativa entre Emma (passado) e Jane (presente), vemos as duas procurando um lugar novo para morar, ambas motivadas por tragédias recentes em suas vidas e decidas a tomar as rédeas de suas vidas novamente. Talvez essa seja parte da justificativa que as leve a aceitar as bizarras regras de locação do imóvel.

Para morar na casa, os candidatos devem preencher um formulário imenso e enviar fotos de rosto, caso sejam aprovados nessa etapa, é necessário fazer uma entrevista pessoal, mas poucos chegam nesse nível. Mas não é o que acontece com Emma e seu namorado Simon e Jane. Então, há outra série de regras a serem cumpridas, entre elas: proibido fumar, animais de estimação, crianças, carpetes, tapetes, cortinas, não pode trocar os móveis, não pode ter bagunça e por aí vai.

Mas o incrível é que, enquanto vemos o presente com Jane, ficamos nos perguntando o que levou Emma e Simon a saírem da casa, afinal, por mais que houvessem muitas regras, eles pareciam estar conseguindo lidar com elas e com todas as modernidades que Folgate Street, nº 1 proporcionava aos seu moradores. Através de uma pulseira e um aplicativo no celular, era possível entrar em casa e ser reconhecido nos cômodos, que acendiam as luzes, acionavam água nas pias e chuveiros e acendiam o fogão.

Outro fato é que realmente ficamos curiosos quanto a personalidade das personagens criadas por Delaney. Sempre há algo a ser descoberto e que leva nossa imaginação por caminhos que podem ou não ser reais. Tanto que, em certos momentos já temos certeza de qual personagem estava naquela cena e somos completamente surpreendidos.

Para mexer ainda mais com nossa mente, entre alguns capítulos, são feitas algumas perguntas, que também foram feitas para os moradores da casa e elas aparecem de acordo com o que está acontecendo com as personagens, ou similar.
3. Você se envolve em um acidente de trânsito e sabe que a culpa foi sua. A outra motorista está confusa e acha que foi ela quem provocou o acidente. Você diz para a polícia que a culpa foi sua ou dela?
( ) Culpa dela
( ) Culpa sua
Certamente é um livro que prende o leitor do início ao fim, com direito a muita especulação ao longo dos curtos capítulos. No é por acaso que uma adaptação cinematográfica já está sendo filmada!
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29 março, 2017


[Resenha] Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo - Iain Reid

Ficha Técnica 

Título: Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo
Título Original: I’m Thinking of Ending Things
Autor: Iain Reid
ISBN: 978-85-68432-96-9
Páginas: 224
Ano: 2017
Tradutor: Santiago Nazarian
Editora: Fábrica231
No romance de estreia do canadense Iain Reid, Jake conduz o carro em que ele e a namorada, que narra a história, vão à fazenda dos pais do rapaz. Durante a longa viagem por estradas desertas e escuras, a garota, atormentada com a perseguição de um homem misterioso que deixa sempre a mesma mensagem de voz em seu telefone, pensa em encerrar o relacionamento com Jake. Mas talvez seja tarde demais. Reid, que tem dois livros de não ficção elogiados pela crítica e contribui para veículos de prestígio como a revista New Yorker, une, numa narrativa profundamente psicológica, tanto referências de terror clássico, quanto elementos de suspenses menos tradicionais, sustentando a trama para além das limitações inerentes ao gênero. Um thriller denso que esconde, em meio ao medo provocado pela sensação de uma tragédia iminente, alegorias sobre a própria vida ser uma tragédia anunciada.

Resenha


Jack e sua namorada estão prestes a cruzar mais uma linha no relacionamento: é a hora da moça conhecer a família dele. Pegando a estrada em um carro e indo em direção à fazenda da família de Jack, iremos conhecer um pouco do conturbado romance dos dois, ao qual nos é evidenciado muitas vezes por ela, que é a narradora, que o mesmo pode acabar a qualquer momento.

Cogitando em pôr um fim ao seu namoro com Jack, a jovem utiliza da viagem para pesar o que os dois têm e até onde o relacionamento poderá ir. Através de fotografias da infância de Jack, conversas com os pais do rapaz e histórias nunca antes compartilhadas, a menina percebe que conhece muito pouco de seu namorado, e que talvez, de fato, ela tenha que acabar com ele muito em breve.
[...] Acho que as perguntas nos fazem menos solitários e mais conectados. Não é sempre questão de saber. Eu gosto de não saber. Não saber é humano. É assim que deve ser, tipo o espaço. É insolúvel, e é escuro, mas não totalmente.
P. 44
“Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo” é o livro de estreia do autor canadense Iain Reid. O que mais gostei da escrita de Reid é a sua escrita rica e extremamente reflexiva. Com palavras fortes e uma excelente entonação, Iain joga ao leitor a todo momento inúmeros questionamentos, que fazem muito sentido no universo conturbado do livro, mas também na vida de muitas pessoas em geral.

Tais questionamentos - ou reflexões - são tão bem escritas, que muitas vezes soam com certo ar de poesia. Não é atoa que separei centenas de quotes do livro, e tive um pequeno trabalho de selecionar algumas poucas para colocar aqui na resenha. Infelizmente, muitas delas entregariam um pouquinho da história, por isso optei pelas mais enigmáticas e corriqueiras.
Tanto ficção quanto memórias são relembradas e recontadas. Ambas são formas de histórias. Histórias são a forma como aprendemos. Histórias são como entendemos uns aos outros. Mas a realidade acontece apenas uma vez.
P. 56/57 
Se tratando de enredo, “Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo” aposta no thriller psicológico, na pesquisa e desenvolvimento de personagens em primeiro plano, e em uma construção lenta com um ápice digno de gerar surpresa. Até a página 100, mais ou menos, acompanhamos a trajetória do casal até a fazenda, e o autor planta na história um homem misterioso que sempre está ligando e rondando os personagens, e isso é somente uma forma de dar ao leitor um suspense coadjuvante, tal suspense que se desdobra e se torna algo muito maior e mais complexo.

Os capítulos finais são de tirar o fôlego, com uma narrativa detalhista e agonizante, onde o leitor acompanhará por páginas uma jornada obscura e surpreendente . Não tenho certeza se o final do livro irá agradar à todos, pois ao mesmo tempo que ele é ousado, pode parecer também confuso, e isso exigirá do leitor muita atenção, principalmente aos detalhes que nos foram dados no decorrer do livro.
Outro sorriso largo. Novamente olho para Jake , mais intensamente desta vez. Busco respostas no rosto dele, mas não recebo nada. Ele precisa entrar na conversa, me ajudar. Mas não o faz.
P. 102 
Independente do sentimento que o livro possa causar em você, acredito que Iain Reid merece os parabéns por ter a coragem de iniciar sua carreira literária com uma obra tão diferenciada e destoante dos suspenses atuais. Parabéns também para a editora, que investiu em uma edição maravilhosa, com direito a capa dura. “Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo” é definitivamente uma boa escolha, caso você esteja procurando um livro diferente, que não seja necessariamente o melhor livro do mundo, mas que ainda assim traz uma boa escrita e uma certa reflexão.

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17 maio, 2016


[Resenha] Não Queira Saber - Lisa Jackson


Ficha Técnica

Título: Não Queira Saber
Título Original: You Don’t Want to Know
Autor: Lisa Jackson
ISBN: 978-85-286-1657-6
Páginas: 461
Ano: 2016
Tradutor: Fabiana Barúqui Martins
Editora: Bertrand Brasil
16Neste envolvente suspense, o pior temor de uma mãe é apenas o começo de um apavorante pesadelo... Todas as noites, em seus sonhos, Ava vê o filho, Noah. Porém, quando ela acorda, é novamente arrebatada pela verdade aterradora: Noah desapareceu há dois anos, e seu corpo nunca foi encontrado. Quase todos, inclusive Wyatt, o marido meio ausente, supõem que o menino tenha se afogado após cair do cais próximo a sua casa, na Ilha Church. Ao longo desse período, Ava passou a maior parte do tempo internada em hospitais psiquiátricos de Seattle, arrasada pelo luto e incapaz de recordar os detalhes do desaparecimento do filho. Contudo, à medida que suas faculdades mentais voltam ao normal, as suspeitas aumentam. Apesar da preocupação que os outros demonstram, ela não consegue se livrar da sensação de que a família e a psiquiatra sabem mais do que dizem. Será apenas preocupação com o seu bem-estar? Ou medo de que Ava descubra alguma coisa? Estará enlouquecendo? Será que Noah ainda está vivo? Ava não irá desistir enquanto não obtiver respostas; a verdade, contudo, é mais perigosa do que ela imagina — e o preço talvez seja mais alto do que espera pagar.

Resenha


Ava sofre com o desaparecimento de seu filho Noah, de apenas dois anos de idade. Quando o menino sumiu durante uma festa de fim de ano, todos se mobilizaram para encontrá-lo, porém, os dias foram se passando e a única solução que a polícia achou, foi de que provavelmente Noah se afogou no mar e seu corpo foi levado pela maré.

Desnorteada e extremamente debilitada, Ava nunca parou de acreditar que seu filho continua vivo. Sofrendo de pesadelos diários onde sempre vê Noah, Ava é julgada friamente por seus parentes e amigos, que alegam que a mesma está louca, e precisa urgentemente de intervenção médica.

Apesar de ter sido internada por alguns meses em um instituto por ordens de seu marido, Ava volta pra casa e continua tendo seus sonhos desconcertantes… Porém, desta vez, Ava começa a ter visões de Noah na propriedade e também a ouvi-lo pelos corredores. Louca ou não, Ava decide descobrir a verdade por detrás do desaparecimento de seu filho, mesmo quando todos ao seu redor fazem de tudo para impedí-la.
– O garoto desapareceu há quanto tempo? Quase dois anos? [...]
– É. – A voz de Ava era cautelosa. [...] – Mas estou bem agora, xerife – mentiu, forçando um sorriso. – Agradeço a sua preocupação e o trabalho que teve vindo até aqui.
– Sem problema. – Mas os olhos dele se fixaram nos dela, e Ava percebeu que os dois estavam mentindo. Ela odiava ser tão submissa, mas sabia que precisava agir com cuidado ou acabaria ficando em observação num hospital, tendo a estabilidade mental questionada.
De novo.
P. 26
“Não Queira Saber” é MARAVILHOSO. É o tipo de livro que lhe tira o fôlego centenas de vezes e lhe surpreende outras centenas mais. A autora, Lisa Jackson, já vendeu mais de 20 milhões de livros no mundo, e eu não faço ideia como até hoje não tinha lido nada dela. Com sua escrita rica e envolvente, Jackson narra o livro em terceira pessoa, possibilitando seu leitor de acompanhar diversos plots que se conectam ao mistério principal da obra.

Caso não tenha ficado claro, “Não Queira Saber” é um thriller, que consegue mesclar muitos segmentos juntos. Com muito suspense, mistério, policial e o próprio sub-gênero de thriller psicológico, além de contar com aquela pitadinha leve de romance, o livro é uma metamorfose a todo momento.
[...] Ava ficou com a certeza angustiante de que não podia confiar em ninguém vinculado à ilha. Pior ainda: não conseguia se livrar da sensação que Wyatt, o homem em quem mais deveria acreditar, não era a mesma pessoa com quem pensava haver se casado.
Mas, por acaso, ela era a garota por quem ele se apaixonara?
P. 69
Assim como Ava, o leitor duvidará de tudo e todos, e tem mais que fazer isso mesmo. A cada capítulo novas informações surgem, novos personagens ganham notoriedade e muitas perguntas se formam. Fica difícil saber quem está mentindo, quem está falando a verdade, se Ava é louca, se ela não é, se Noah está vivo ou se está morto… Literalmente nada está escrito em pedra até a página final. Lisa brinca com sua história, construindo e desconstruindo os fatos em uma teia de aranha maestral e muito bem elaborada.

Duas coisas que eu amei muito no livro: 1) todos os principais acontecimentos se passam em uma antiga mansão em uma ilha há quase uma hora de distância da cidade mais próxima, o que deixa tudo por si só com um aspecto macabro e desesperador. 2) Há muitas personagens, todas elas muito bem desenvolvidas e cada uma com sua função, funções que só iremos descobrir com o desenrolar das coisas, mas é maravilhoso ver que cada personagem cumpre um papel essencial no grande mistério da obra.
– Mas por que fariam isso?
– Me diga você. Quem teria mais a ganhar se você saísse de cena? Ou fosse internada?
– Ou morresse? – sugeriu Ava, levando a lógica e Tanya para outro patamar.
P. 151
“Não Queira Saber” é uma ótima pedida para qualquer tipo de leitor, é aquele tipo raro de livro que tem os requisitos para agradar à todos. Muito bem escrito, muito bem arquitetado e fugindo ao máximo do clichê, “Não Queira Saber” faz com que nem as páginas brancas atrapalhem a leitura. Atreva-se a conferir esse livro, tenho certeza que vocês vão querer saber – e se surpreenderão – com o que está em suas páginas.

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22 setembro, 2015


[Resenha] Onde Cantam os Pássaros - Evie Wyld

Ficha Técnica

Título: Onde Canta os Pássaros
Título Original: All The Birds, Singing
Autor: Evie Wyld
ISBN: 978-85-66636-52-9
Páginas: 256
Ano: 2015
Tradutor: Leandro Durazzo
Editora: DarkSide® Books
16No premiado romance de Evie Wyld, a fazendeira Jake White leva uma vida simples numa ilha inglesa. Suas únicas companhias são rochedos, a chuva incessante, suas ovelhas e um cachorro, que atende pelo nome de Cão. Tendo escolhido a solidão por vontade própria, Jake precisa lidar com acontecimentos recentes que põem em dúvida o quanto ela realmente está sozinha – e o quanto estará segura. De tempos em tempos, uma de suas ovelhas aparece morta, o que pode ser muito bem obra das raposas que habitam a floresta próxima à sua fazenda. Ou de algo pior. Um menino perdido, um homem estranho, rumores sobre uma fera e fantasmas do seu próprio passado atormentam a vida de uma mulher que sonha com a redenção.

Resenha


Em uma pequena ilha em algum lugar da Inglaterra, Jake White encontrou o seu refúgio. Morando em uma fazenda sozinha, Jake, que é uma garota apesar do nome masculino, cria um rebanho de ovelhas. Obtendo seu lucro através da venda de lã e de carne, a jovem é praticamente uma forasteira na cidade. Ela evita se misturar com os moradores locais, que sempre lhe jogam olhares curiosos, principalmente pelo fato de Jake ser uma mulher solteira tomando conta de seu próprio negócio.

Mas, de repente, as ovelhas de Jake começam a aparecer mortas. Como se não bastasse abater seus animais, a pessoa ou a coisa por detrás dos ataques estraçalha as carcaças, deixando as pobres ovelhas irreconhecíveis e banhadas de sangue. A solução então é aumentar a proteção da fazenda: avisar ao sargento, montar as armadilhas de raposas e manter seu cão de guarda, o Cão, sob vigilância extra.
Podia ter sido o ar, o vento. Podiam ter sido as ovelhas se virando para me olhar, ali na escuridão. Ou algo saído do mar que se arrastara pela trilha em minha direção. Mas não. Era apenas a noite, como eu já vira milhares de vezes antes, sozinha.
Pág. 67
Apesar de toda precaução tomada, a jovem Jake começa a ficar bastante perturbada. Suas ovelhas continuam sendo atacadas, e sua desconfiança sobre quem seja o verdadeiro culpado só aumenta. Enquanto tem que lidar com esse grande problema na fazenda, Jake precisa arrumar tempo para enfrentar seu passado e todos os tormentos e assombrações que deixou para trás. Mas enquanto não encontra uma solução, tanto para sí e quanto para as ovelhas, Jake terá que aprender a lidar com todo sangue que ainda virá a ser derramado.

“Onde Cantam os Pássaros” é uma obra magnífica da autora Evie Wyld. Premiada por diversas obras, inclusive por esta a qual resenho, Wyld se mostra uma escritora de estilo clássico. Suas personagens são profundas e sua narrativa é cativante, tudo isto de uma forma bastante rústica, com cara de clássico literário mesmo, daqueles que todo mundo conhece e que sobrevive através das décadas.
[...] Saio da cama e faço flexões no escuro. Quando meu braço já não suporta meu peso, faço abdominais e finalmente me arrasto para a cama. Conforme pego no sono, um pássaro grita na noite, soando como uma sirene.
Pág. 135
A narrativa do livro é bastante desafiadora. Os capítulos ímpares são a história atual de Jake, cuidando da sua fazenda, enquanto os capítulos pares narram o passado conturbado da nossa heroína. O curioso destes capítulos pares é que a escritora os conta de trás pra frente. É sensacional! Exige bastante da atenção do leitor, logicamente, porém a técnica cria toda uma atmosfera de suspense ao livro. É como se tirássemos diversas camadas de Jake, descobrindo um pouquinho de sua vida aos poucos, um processo que demanda bastante paciência, devido a delicadeza da situação.

Eu ainda não sei definir muito bem qual é o estilo literário de “Onde Cantam os Pássaros”. Eu ousaria dizer que é uma mistura de thriller psicológico com fantasia. Enquanto mergulhava nos mistérios da vida de Jake, me senti acompanhando mais um excelente filme do conhecido diretor e escritor de cinema M. Night Shyamalan. Por sinal, eu diria que a obra de Wyld me recorda de uma forma bastante positiva três filmes de Shyamalan: “Sinais” (2002), “A Vila” (2004) e “A Dama na Água” (2006). Para quem conhece algum desses filmes, deve saber que mistério e fantasia se unem para narrar belíssimas e perturbadoras histórias.
“Eu não sou uma mulher histérica.”
“Não, mas não vai ajudar em nada se você resolver que existem monstros na mata. Este é um lugar ermo, há uma porção de animais que você não conhece…”
“Eu conheço todos os animais.”
Pág. 212
Com uma história delicada e ao mesmo tempo bastante profunda, “Onde Cantam os Pássaros” é um dos melhores romances publicados pela Darkside Books que já tive a oportunidade de ler, senão o melhor. Este é um livro diferencial, bastante reflexivo, que exige que o próprio leitor seja um participante ativo da narrativa. Para fechar com chave de ouro, a capa não poderia ser mais bela. Uma incrível capa para um excelente livro. Se continuar escrevendo livros desta qualidade, só vejo motivos para Evie Wyld ouvir nada que não seja o canto dos pássaros.

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