17 setembro, 2017


[Resenha] Os 27 Crushes de Molly - Becky Albertalli

Ficha Técnica 

Título: Os 27 Crushes de Molly
Título Original: The Upside of Unrequited
Autor: Becky Albertalli
ISBN: 978-85-510-0236-0
Páginas: 318
Ano: 2017
Tradutor: Regiane Winarski
Editora: Intrínseca
Molly já viveu muitas paixões, mas só dentro de sua cabeça. E foi assim que, aos dezessete anos, a menina acumulou vinte e seis crushes. Embora sua irmã gêmea, Cassie, viva dizendo que ela precisa ser mais corajosa, Molly não consegue suportar a possibilidade de levar um fora. Então age com muito cuidado. Como ela diz, garotas gordas sempre têm que ser cautelosas. Tudo muda quando Cassie começa a namorar Mina, e Molly pela primeira vez tem que lidar com uma solidão implacável e sentimentos muito conflitantes. Por sorte, um dos melhores amigos de Mina é um garoto hipster, fofo e lindo, o vigésimo sétimo crush perfeito e talvez até um futuro namorado. Se Molly finalmente se arriscar e se envolver com ele, pode dar seu primeiro beijo e ainda se reaproximar da irmã. Só tem um problema, que atende pelo nome de Reid Wertheim, o garoto com quem Molly trabalha. Ele é meio esquisito. Ele gosta de Tolkien. Ele vai a feiras medievais. Ele usa tênis brancos ridículos. Molly jamais, em hipótese alguma, se apaixonaria por ele. Certo? Em Os 27 Crushes de Molly, a perspicácia, a delicadeza e o senso de humor de Becky Albertalli nos conquistam mais uma vez, em uma história sobre amizade, amadurecimento e, claro, aquele friozinho na barriga que só um crush pode provocar.

Resenha

Becky Albertalli foi aclamada por sua obra de estreia, “Simon vs. a Agenda Homo Sapiens”, porém, é o seu segundo trabalho que realmente prova a competência e versatilidade da autora, que ao criar distintos personagens e núcleos, consegue entregar ao leitor uma história que vai além de um romance. 

Molly é uma jovem apaixonada e sonhadora, que na menor das oportunidades já começa a fantasiar com um romance arrebatador de conto de fadas. Mas ela nunca beijou na vida, e sua lista de crushes já contabiliza 26 rapazes. Insegura, principalmente devido ao seu peso, Molly fica ainda mais tensa ao ver sua irmã gêmea, Cassie, encontrar uma namorada, ficando com medo de perder a pessoa que mais lhe passa confiança na vida.

Mas o coração de Molly não perde tempo, e assim que Cassie começa a namorar, o universo lhe entrega não um, mas dois novos crushes. O primeiro deles se chama Will, e é o melhor amigo de Mina, a namorada de sua irmã, e o segundo é Reid, colega de trabalho da nossa protagonista. Com muita cautela, e com as confusões e questionamentos que sempre lhe impedem de investir em seus crushes, Molly terá que mudar suas ações e escolher um dos dois para ser o seu vigésimo sétimo crush, e se tudo der certo, será com ele com quem Molly dará o seu tão esperado primeiro beijo. 

Isso não entra na minha cabeça. Como as pessoas têm certeza de que seu amor será correspondido? Como isso automaticamente vira uma suposição?
P. 65

Com muita fofura e graça, “Os 27 Crushes de Molly” conquista o leitor já no primeiro capítulo. O humor da escrita de Albertalli ajuda a suavizar o drama que a personagem principal lida, sem necessariamente torná-lo forçado ou desvalidando e simplificando o enredo e os problemas. Pelo contrário, a autora, assim como disse no começo da resenha, consegue transformar um hipotético simples romance infanto-juvenil, em uma obra rica e elaborada. 

Além de trabalhar a já citada insegurança de Molly por ser gorda e nunca ter beijado, Becky potencializa a diversidade de suas personagens ao optar por criar uma família bem diversificada. Para começo de conversa, Molly possui duas mães, uma delas gerou através de um doador Molly e Cassie (que diferentemente da primeira, é magra), a segunda mãe gerou anos depois através do mesmo doador, um irmãozinho, o Xavier. 

Portanto, eu devia estar acostumada. Mesmo assim, sempre fico meio desconcertada quando as pessoas falam coisas sobre o meu corpo. Acho que quero acreditar que ninguém repara que sou gorda. Ou que sou bonita e gorda ao mesmo tempo, como uma modelo plus size. Sei lá.
P. 123/124

Para enlouquecer ainda mais os conservadores de plantão, Albertalli opta por definir uma mãe sendo branca e a outra negra, e a família tendo como base religiosa o judaísmo. Claramente, ainda temos o fato de uma das integrantes, a Cassie, assim como as mães, ser homossexual e ter uma namorada. Todos esses detalhes são tratados com muita naturalidade na narrativa da autora, afinal, essa é a realidade desta família.

Porém, sem muito alarde, já que esse não é o plot principal da obra, em alguns momentos existem sim, questionamentos e julgamentos de personagens externos à esta realidade familiar. Desde a avó que não se preocupa em ter uma filha homossexual, mas se incomoda com o peso da neta, ou pessoas que não conseguem compreender como Molly tem integrantes negros em sua família. Esses detalhes mostram muito bem diversas vertentes da nossa sociedade atual, e até mesmo como a ausência de certos preconceitos em determinadas pessoas, não eliminam as mesmas de terem outros. 

– Porque eu não quero ser a garota que precisa de um namorado – respondo.
– Ah, mas é claro que você não precisa de um – diz Nadine. – Mas não tem nada de errado em querer um.
P. 294

“Os 27 Crushes de Molly” pode até ser um young-adult, mas um do tipo maduro, mais para adulto do que adolescente, assim por dizer. Becky Albertalli tem uma escrita cativante e questionamentos válidos e atuais, tratados de uma forma séria, mas sem perder a diversão. A riqueza das personagens é só mais um delicioso fator, que de tão bem escritas e autênticas, chegam a dar a sensação de serem reais e próximas de nós. Não acho que tenha como alguém odiar Molly, e querendo ou não, acho que esse livro será o maior crush de quem o ler.

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