11 setembro, 2015


[Resenha] Ovelha: Memórias de um Pastor Gay - Gustavo Magnani

Ficha Técnica

Título: Ovelha: Memórias de um Pastor Gay
Autor: Gustavo Magnani
ISBN: 978-85-8130-325-3
Páginas: 227
Ano: 2015
Editora: Geração Editorial
16Este livro, estreia impressionante de um jovem e talentoso escritor, é o relato pecaminoso de um decadente. A história de um homem religioso e carismático, temente a Deus, mas amante insaciável de sua própria carne exótica, a carne de outros homens.Um pastor gay, casado com uma ex-prostituta, filho de uma fanática religiosa. Neurótico e depravado. E agora condenado.Internado no hospital, debilitado e com um segredo de uma tonelada nas costas, este personagem atormentado decide libertar-se de seus demônios e relatar seu drama.Num relato cru e sem censura, ele literalmente vomita seus trinta anos de calvário e charlatanice na cara da congregação (e de qualquer um que se interesse por um bom inferno). Sexo, paranoia, corrupção e destruição são os ingredientes tóxicos dessa obra provocante, polêmica e inovadora.

Resenha


No leito de um hospital, com a vida por um fio, o Pastor decide colocar em um caderno todos seus pecados, ou pelo menos, os maiores deles. Seguindo a vida religiosa por obrigação por parte de sua mãe, o Pastor desde pequeno é imergido neste ambiente de regimento bíblico, ao mesmo tempo que vai crescendo e descobrindo seu verdadeiro eu.

Geração 2014Ele é gay, ou como o mesmo diz na primeira frase do seu caderno: “eu nasci veado”. Tendo que saber lidar com a sua profissão e com os desejos que seu corpo pede, o Pastor ainda terá que conciliar todas as dificuldades de uma vida ‘normal’. Fugindo dos problemas que sua sexualidade poderia trazer para si, ele acaba se casando com uma ex-prostituta, na tentativa de pelos olhos da religião, estar fazendo o correto, ou pelo menos, tentando maquiar algo que não queira que os outros descubram.
Amor à causa? Quer só chamar atenção e fazer conta que luta por algo.
Se ainda são reprimidos, por que reprimir e humilhar os outros? Declarar guerra e suas crenças é o pior caminho. Se querem igualdade, respeitem o católico e o evangélico, até porque existem gays religiosos.
Pág. 40
Ao escrever seu caderno de memórias, o Pastor não mede palavras para colocar no papel tudo aquilo que considera como pecado. Vamos mergulhando em seu passado desde quando assumiu para si mesmo que era gay, passando por suas enumeras primeiras vezes, suas traições, além da conturbada relação com sua família. E é assim que vamos descobrindo um pouco mais da vida de um homem que teve que viver sempre escondido, com medo de sua própria sombra.

“Ovelha: Memórias de um Pastor Gay” é o primeiro livro publicado do autor Gustavo Magnani. Diferentemente do que algumas pessoas podem estar pensando, esta obra não é baseada na vida de Gustavo, que tem apenas vinte anos. Mesmo sendo uma obra de ficção, “Ovelha” consegue retratar uma realidade sob uma ótica bastante diferenciada. Mesmo com o universo religioso ao qual o livro é ambientado, fica evidente que o objetivo de Magnani foi questionar a importância de sermos verdadeiros com nós mesmos, independentemente de crenças e opiniões alheias.
Passou a mão na testa, apertou a mandíbula e respondeu que eu precisava viver.
[...]
Viver não é só questão de tempo, ele respondeu. mas de intensidade.
Pág. 91
Logicamente que o livro através de seu título consegue gerar uma polêmica por si só, aliás o livro é um produto comercial, precisa chamar atenção de alguma forma para vender. Porém, se engana quem acha que polêmica é sinônimo de má qualidade. Fugindo deste pensamento, Magnani prova que sua escrita tem suas qualidades, e que seu livro vai além de religião e sexualidade. Não nego que para alguns leitores mais conservadores, a narrativa talvez choque, mas é necessário deixar claro que para o universo desta obra, o vocabulário acaba se tornando uma personagem. E não vamos ser hipócritas… quem comprar um livro com este nome, deve saber que tipo de leitura vai encontrar em suas páginas.

Apesar da boa narrativa de Gustavo, que decidiu construir seu livro de uma forma não linear, alguns aspectos desta construção me deixaram um pouco confuso. Em certos momentos os nomes de alguns personagens são iniciados com letras minúsculas, e já em outros com letras maiúsculas. No início cheguei a me perguntar se o autor optou por só utilizar letras maiúsculas para escrever referências à Deus… mas durante a leitura minha teoria se provou errada. Outro ponto linguístico duvidoso foi a utilização da palavra “veado”, pois acredito que o termo pejorativo para se referir aos gays seja “viado”. Ainda não sei se estes foram ‘erros’ propositais, ou problemas de edição.
Foda-se a comparação exata e poética; fodam-se as juras, os penteares de cabelo, os espelhos denunciantes; foda-se a retórica e fodam-se também os namorados; foda-se José Dias e a quebra de estilo; volte de ressaca, embebede teus lábios, ó Teresa, conhecedora daquilo de mais grave e obscuro das minhas… profundezas.
Pág. 144
No mais, “Ovelha: Memórias de um Pastor Gay” é um livro com um desenrolamento interessante, e com questionamentos polêmicos que são bastante válidos. O autor é inteligente ao não dar nome à sua personagem principal até certo ponto da narrativa, coisa que acredito ser um dos aspectos mais ousados da obra. Não sei ao certo o que eu acho desta ousadia, mas tenho certeza que por este, e outros motivos, “Ovelha” ainda vai dar muito o que falar.

Comentários
12
Compartilhe
 
imagem-logo
De Tudo um Pouquinho - Copyright © 2016 - Todos os direitos reservados.
Layout e Programação HR Criações