06 abril, 2018


[Resenha] As Perguntas - Antônio Xerxenesky

Ficha Técnica 

Título: As Perguntas
Autor: Antônio Xerxenesky
ISBN: 978-85-359-2954-6
Páginas: 177
Ano: 2017
Editora: Companhia das Letras
Alina enxerga sombras e vultos desde criança. Doutoranda em história das religiões, especializada em tradições ocultistas e aferrada à racionalidade que tudo ilumina, ela se acostumou a considerar as aparições como simples vestígios de sonhos interrompidos. Certo dia, um telefonema da delegacia desarruma sua rotina de tédio programado. A polícia suspeita de que uma seita vem causando uma onda de surtos psicóticos em São Paulo. A única pista disponível é um símbolo geométrico desenhado por uma das vítimas. Intrigada e ansiosa para fugir da rotina, Alina decide investigar por conta própria um mistério que a fará questionar os limites entre razão e religião, cultura e crença. Em 'As perguntas', Antonio Xerxenesky costura o tédio da vida cotidiana com o desconforto do horror em um livro repleto de referências ao universo dos filmes, da música e do ocultismo.

Resenha

Há um motivo para que os filmes de terror se passem longe das metrópoles. Porque o sobrenatural não resiste a uma luz branca, ele depende de sombras, de um lugar fora do lugar para existir.
P. 144 
Existe uma categoria literária chamada novella, que são histórias longas demais pra serem consideradas contos e curtas demais pra serem chamadas de romances (novels), e é aqui que As Perguntas se encaixa.

 A história segue Alina, que foi morar em São Paulo há alguns anos e tem um emprego tedioso que não traz nenhuma satisfação e só serve pra pagar as contas. Ela é literalmente assombrada por uns vultos que vê de vez em quando desde que era criança, além de ainda ser atormentada pela morte do irmão. Ela recebe uma ligação de uma delegada com o pedido de ajudar nas investigações a respeito de um símbolo que pode estar conectado com uma série de pessoas tendo surtos psicóticos na cidade e, quando a investigação particular a leva pro centro de uma possível sociedade secreta, as coisas talvez fiquem sinistras demais.

Com uma narrativa que se passa toda em um dia, o livro tem um ritmo interessante que faz com a leitura seja muito fluida e rápida. É fácil terminar rápido porque a história é instigante e dá pra ler o livro todo de uma vez só. A protagonista, por mais que tente agir de forma racional, é confrontada com questões que podem ser sobrenaturais ou não e reage de forma bastante verossímil.

 A relação que ela tem com o cultismo é curiosa: ela é doutoranda em história das religiões apesar de não acreditar em nenhuma e ser bastante cética em relação à espiritualidade. Para uma pessoa descrente, talvez o impacto de fenômenos sobrenaturais seja muito maior e é interessante observar como Alina lida com o medo e o oculto.

O único ponto frustrante do livro é que ele não apresenta tantas respostas quanto eu gostaria, deixando um sentimento de inquietação no final da história. Apesar disso, é uma leitura excelente e muito curiosa, que pode ser melhor aproveitada se o leitor tiver um conhecimento mínimo de ocultismo.

 Recomendado pra quem gosta de mistério e sobrenatural.
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25 fevereiro, 2018


[Resenha] O Clube dos Jardineiros de Fumaça - Carol Bensimon

Ficha Técnica 

Título: O Clube dos Jardineiros de Fumaça
Autor: Carol Bensimon
ISBN: 978-85-3593-012-2
Páginas: 368
Ano: 2017
Editora: Companhia das Letras
Em um cenário formado por coníferas milenares, estradas sinuosas e falésias, a região californiana do Triângulo da Esmeralda concentra a maior produção de maconha dos Estados Unidos. É lá que o jovem professor brasileiro Arthur busca recomeçar a vida, depois dos acontecimentos que o levaram a deixar Porto Alegre. Aos poucos, ele se insere na dinâmica local e passa a fazer parte de uma história que começa com a contracultura dos anos 1960 e se estende até o presente. À vida de Arthur e daqueles com quem estabelece vínculos — o atormentado Dusk, a solitária Sylvia, a indecisa Tamara — mistura-se a de personagens reais que participaram do embate que levou à descriminalização do uso da maconha, fazendo deste um poderoso romance panorâmico. Cruzando história e ficção, com uma linguagem original e ousada, a meio caminho entre Brasil e Estados Unidos, Carol Bensimon compõe em O clube dos jardineiros de fumaça um brilhante retrato da geração hippie e de seu legado.

Resenha


Arthur Lopes é um ex professor de história que foi demitido de seu emprego por plantar maconha. Depois de quase ter sido preso, ele decide ir para a Califórnia procurar trabalho nas inúmeras plantações do condado de Mendocino. É nesse ponto que encontramos o protagonista, meio perdido, atrás de alguma forma de ganhar mais experiência. No processo, ele conhece e fica mais íntimo de duas mulheres com histórias até mais interessantes que a dele.

Tamara tem quarenta e poucos anos, trabalha como barista e tem um passado que envolve uma relação poliamorosa fracassada e um pai que ela acabou de conhecer. E Sylvia, minha favorita, é uma senhora que já foi uma ativista e que hoje aluga seus quartos no Airbnb. Nenhum desses três personagens está envolvido com maconha no começo da história, apesar de Sylvia dizer que eles devem ser as únicas pessoas da cidade que não fazem parte do negócio.

Mas isso vai mudar.

A trama parece mais focada em apresentar o cenário do que criar uma narrativa, o que torna o livro um pouco lento. A falta de um conflito externo deixa o livro devagar e explicativo demais. A gente fica esperando alguma coisa chocante acontecer. O que é bem frustrante. Alguns dos capítulos são dedicados à história do processo de legalização da maconha na Califórnia e aos métodos de plantio, o que é intrigante, já que nos apresenta outro ponto de vista sobre um assunto tão mistificado.

O livro também conta com coadjuvantes cujas histórias tornam a narrativa mais rica, como Dusk e Marina Nunes. A autora consegue dedicar tempo a desenvolver cada personagem e tornar seu passado interessante. O clube dos jardineiros de fumaça é um livro extremamente relevante, que joga luz sobre um assunto que ainda é tabu no Brasil. Apesar de ser um pouco prejudicado pela falta de conflito, os aspectos históricos nos dão o suporte necessário para entender o cenário e a escrita é empolgante.

Recomendado principalmente para aqueles que gostam de temas polêmicos e livros que misturam história com ficção.

Amazon | Submarino | Americanas | Cultura | Fnac | Livraria da Folha
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29 janeiro, 2018


[Capas pelo Mundo] Hibisco Roxo


Olá leitores do De Tudo um Pouquinho! O primeiro Capas pelo Mundo de 2018 será com um dos livros de autora incrível: Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie. Autora nigeriana e que aborda em seus livros questões de gênero (o local de fala feminino numa sociedade machista), racial, social, família e religião. 
Protagonista e narradora de Hibisco roxo, a adolescente Kambili mostra como a religiosidade extremamente “branca” e católica de seu pai, Eugene, famoso industrial nigeriano, inferniza e destrói lentamente a vida de toda a família. O pavor de Eugene às tradições primitivas do povo nigeriano é tamanho que ele chega a rejeitar o pai, contador de histórias encantador, e a irmã, professora universitária esclarecida, temendo o inferno. Mas, apesar de sua clara violência e opressão, Eugene é benfeitor dos pobres e, estranhamente, apoia o jornal mais progressista do país. Durante uma temporada na casa de sua tia, Kambili acaba se apaixonando por um padre que é obrigado a deixar a Nigéria, por falta de segurança e de perspectiva de futuro. Enquanto narra as aventuras e desventuras de Kambili e de sua família, o romance que mistura autobiografia e ficção, também apresenta um retrato contundente e original da Nigéria atual, traçando de forma sensível e surpreendente, um panorama social, político e religioso, mostrando os remanescentes invasivos da colonização tanto no próprio país, como, certamente, também no resto do continente.
Selecionei algumas capas de Hibisco Roxo pelo mundo, Chimamanda já teve obras traduzidas para mais de 30 países!

Alemanha

Brasil

As capas do Brasil são as minhas preferidas! A minha edição de Hibisco Roxo é a segunda e ela é lindíssima. No ano passado a Companhia das Letras entregou um projeto gráfico maravilhoso para os livros de Chimamanda que já tinham sido publicados pela editora. 

Canadá e Dinamarca

Espanha

A imagem da capa canadense se repete em diversas edições ao redor do mundo.


Estados Unidos

França

A primeira capa francesa tem uma ilustração da personagem muito bonita, mas não me agrada a fonte escolhida para título e nome da autora.

Inglaterra

Polônia

A terceira capa inglesa é simples, opta por não utilizar a imagem da personagem feminina e ficou muito bonita. Arte que se assemelha a primeira capa espanhola e a terceira capa estadunidense. 

Finlândia, Holanda e Itália

Lituânia, Noruega e Portugal

A capa que mais chamou a minha atenção negativamente foi a da Lituânia. 

Quênia, Romênia e Sérvia

Suécia e Turquia

Já leram Hibisco Roxo? Ou outra obra da autora? Hibisco Roxo está na minha meta de 2018! Me contem nos comentários quais capas vocês mais gostaram e aquelas que não agradaram. Até o próximo Capas pelo Mundo!
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14 janeiro, 2018


[Resenha] No seu Pescoço - Chimamanda Ngozi Adichie

Ficha Técnica

Título: No seu Pescoço
Título Original: The Thing Around Your Neck
Autor: Chimamanda Ngozi Adichie
ISBN: 978-85-359-2945-4
Páginas: 233
Ano: 2017
Tradutor: Julia Romeu
Editora: Companhia das Letras
No Seu Pescoço
A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie vem conquistando um público cada vez maior, tanto no Brasil como fora dele. Em 2007, seu romance Meio sol amarelo venceu o National Book Critics Circle Award e o Orange Prize de ficção, mas foi com o romance seguinte, Americanah, que ela atingiu o volume de leitores que a alavancou para o topo das listas de mais vendidos dos Estados Unidos, onde vive atualmente. Ao trabalho de ficcionista, somou-se a expressiva e incontornável militância da autora em favor da igualdade de gêneros e raça. Agora é a vez de os leitores brasileiros conhecerem a face de contista dessa grande autora já consagrada pelas formas do romance e do ensaio. Publicado em inglês em 2009, No seu pescoço contém todos os elementos que fazem de Adichie uma das principais escritoras contemporâneas. Nos doze contos que compõem o volume, encontramos a sensibilidade da autora voltada para a temática da imigração, da desigualdade racial, dos conflitos religiosos e das relações familiares. Combinando técnicas da narrativa convencional com experimentalismo, como no conto que dá nome ao livro — escrito em segunda pessoa —, Adichie parte da perspectiva do indivíduo para atingir o universal que há em cada um de nós e, com isso, proporciona a seus leitores a experiência da empatia, bem escassa em nossos tempos.

Resenha

Leitura extremamente necessária. A fama de Chimamanda Ngozi Adichie é o reflexo de obras tão significativas e que fazem o leitor refletir o lugar no qual eles se encontram, principalmente o local de fala. Até que ponto sabemos e podemos nos colocar no lugar de suas personagens e perceber os desconfortos vividos.

Em No seu Pescoço, Chimamanda - através de 12 contos - nos apresenta diferentes histórias e que abordam os temas desigualdade racial, social, o local feminino, religião e família. A autora que conquistou tantos leitores através de seus escritos carregados de crítica social, continua nesse livro assumindo a responsabilidade de tratar de assuntos que costumam incomodar. Assuntos que colocam "o dedo na ferida" sem medo de expor as suas mazelas. Através de suas personagens, Chimamanda ilustra os tantos papéis sociais que mulheres e homens desenvolvem e assumem em sociedade.

Nesse livro de contos, a autora nos apresenta doze histórias diferentes e nos apresenta nigerianos que moram em solo norte-americano. A ligação destas personagens com o seu país de origem é muito forte. Os acontecimentos na Nigéria são intensos para esses imigrantes. E esse cenário escolhido por Adichie é para tocar em pontos que estão em nosso cotidiano e que diversas vezes nós deixamos que se tornem naturais. Um exemplo disso é o comportamento do esposo com a sua companheira no segundo conto, "Réplica". A realidade de privilégios masculinos sobre os desejos e ideias femininas. A personagem se questiona qual o papel dela, o que ela está fazendo com a própria vida.
Nkem desliga depressa. É isso que eu me tornei, pensa. Estou usando um empregado que nem conheço para espionar meu marido.
P. 44
Chimamanda escreve com sutileza sobre assuntos pesados. Isso não significa que os temas são tratados com menos seriedade, pelo contrário. Tudo é descrito com emoção e nada forçado para causar esta sensação. As sensações de revolta, tristeza, alegria, empatia elas acontecem porque as personagens descrevem pequenas violências cotidianas que nós sofremos. Então, quando o leitor se debruça sobre suas histórias, fica impossível não fazer a conexão com o que te cerca. Das relações familiares até pessoas completamente aleatórias que entram na sua vida. Adichie exemplifica a vida do povo nigeriano que imigra para os Estados Unidos, mas também a nossa. Nos mostra como não sabemos viver em sociedade e isso é o grande motivo para tanta desigualdade, seja de gênero, racial, social.

No seu Pescoço é uma leitura extremamente necessária e que nos coloca em diversos questionamentos sobre o que somos e o que fazemos. Quais os impactos de minhas ações na vida de outras pessoas? Como disse anteriormente, o que mais me chamou atenção foi perceber as pequenas violências cotidianas retratadas exatamente da mesma maneira como lidamos com elas em nossas vidas. Quantas vezes não naturalizamos ou relevamos comportamentos preconceituosos e não nos damos conta de como isso é perigoso. De como essas pequenas ações acabam e machucam as outras pessoas. Chimamanda Ngozi Adichie me conquistou através de seu manifesto Sejamos Todos  Feministas e é perceptível que autora é uma militante e usa o seu lugar de escritora para fazer a diferença. Mulher negra, país de origem africano e imigrante nos Estados Unidos, Adichie cria narrativas com duras críticas sociais. Não tem como após a leitura de seus livros não refletir sobre a nossa responsabilidade em tornar o lugar que vivemos em algo mais igualitário. Leitura mais do que recomendada!
Havia outras coisas que Ujunwa queria dizer, mas não disse. Havia lágrimas brotando em seus olhos, mas ela não deixou que caíssem.
P. 124

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11 julho, 2017


[Resenha] Nossas Noites - Kent Haruf

Ficha Técnica 

Título: Nossas Noites
Título Original: Our Souls at Night
Autor: Kent Haruf
ISBN: 978-85-3592-866-2
Páginas: 160
Ano: 2017
Tradutor: Sonia Moreira
Editora: Companhia das Letras
Em Holt, no Colorado, Addie Moore faz uma visita inesperada a seu vizinho, Louis Waters. Viúvos e septuagenários, os dois lidam diariamente com noites solitárias em suas grandes casas vazias. Addie propõe a Louis que ele passe a fazer companhia a ela ao cair da tarde para ter alguém com quem conversar antes de dormir. Embora surpreso com a iniciativa, Louis aceita o convite. Os vizinhos, no entanto, estranham a movimentação da rua, e não demoram a surgir boatos maldosos pela cidade. Aos poucos, os dois percebem que manter essa relação peculiar talvez não seja tão simples quanto parecia. Neste aclamado romance, Kent Haruf retrata com ternura e delicadeza o envelhecimento, as segundas chances e a emoção de redescobrir os pequenos prazeres da vida que pode surpreender e ganhar um novo sentido mesmo quando parece ser tarde demais.

Resenha


O último livro de Kent Haruf tem uma premissa singela: uma senhorinha viúva propõe a um vizinho, também viúvo, que ele vá até a casa dela à noite para conversar antes de dormir. Ele, a princípio surpreso, aceita a proposta e eles começam a se encontrar. Addie e Louis passam a se encontrar assim que o sol se põe. Ele vai até a casa dela, ele toma uma garrafa de cerveja, ela toma uma taça de vinho e eles sobem para o quarto. Depois de se vestirem para dormir, os dois conversam até caírem no sono.

O comportamento dos velhinhos não passa despercebido por muito tempo. Alguns dos vizinhos começam a comentar, admirando sua coragem de “terem um caso” (apesar de os dois afirmarem que são só amigos), e outros fazem fofocas maldosas sobre a intimidade dos dois. Até o filho de Addie e a filha de Louis se posicionam contra o relacionamento, alegando que “não é certo” ou que é imoral pessoas da idade deles fazerem esse tipo de coisa.


Com o passar das noites, os dois se afeiçoam cada vez mais um ao outro. Eles nunca tinham sido muito próximos antes de se encontrarem à noite. Addie é uma senhora solitária e assombrada pela morte da filha, e não teve uma vida conjugal prazerosa. Louis foi marcado por sua infidelidade e pelo distanciamento da esposa. Ambos são pessoas que só querem ter um pouco de companhia no fim da vida.

O livro é bem honesto em retratar a solidão da velhice e como os julgamentos alheios interferem nas escolhas que fazemos. A recusa de Addie em ficar sozinha e aproveitar o máximo de tempo possível com a família é algo com que a maioria das pessoas pode se identificar. Mesmo para pessoas jovens, não é difícil imaginar os efeitos do cansaço e de uma vida sem afeto.


Os personagens são carismáticos e fofos e suas motivações são compreensíveis. A escrita é fluida e agradável, apesar de levar um tempo para se acostumar com a diagramação, já que não existe sinalização de falas. O livro é tão curtinho que se eu contar muita coisa é capaz de dar spoiler e a história é tão envolvente que eu não ligaria se tivesse mais trezentas páginas de Addie e Louis conversando sobre a vida.

Apesar de não me agradar, o final é sincero e até fofinho. A história está sendo adaptada para o cinema e o filme é está em pós-produção, com Jane Fonda e Robert Redford nos papéis que eu imaginei para Vanessa Redgrave e Morgan Freeman.
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18 junho, 2017


[Resenha] A Febre do Amanhecer - Peter Gárdós

Ficha Técnica 

Título: A Febre do Amanhecer
Título Original: Hajnali láz
Autor: Péter Gárdós
ISBN: 978-85-3592-875-4
Páginas: 216
Ano: 2017
Tradutor: Edith Elek
Editora: Companhia das Letras
Julho de 1945. Miklos é um jovem húngaro de 25 anos que sobreviveu ao campo de concentração e foi levado para a Suécia para recuperar a saúde. Mas logo os médicos o desenganam: ele tem os pulmões comprometidos e conta com poucos meses de vida. Miklos, porém, tem outros planos. Ele não sobreviveu à guerra para morrer num hospital. Após descobrir o nome de 117 jovens húngaras que também se encontram em recuperação na Suécia, ele escreve uma carta a cada. Uma delas, ele tem certeza, se tornará sua esposa. Em outra parte do país, Lili lê a carta de Miklos e decide responder. Pelos próximos meses, os dois se entregam a uma correspondência divertida, inusitada, cheia de esperança. Baseado na história real dos pais do autor, A febre do amanhecer é um romance vibrante e inspirador sobre a vontade de amar e o direito de viver.

Resenha


Às vezes a vida real parece um filme. Às vezes o que aconteceu de verdade parece um roteiro cinematográfico de tão improvável. Foi o que aconteceu com os pais de Peter Gárdós. A história deles parece irreal, saída direto de uma daquelas películas em que as pessoas ainda escrevem cartas e se apaixonam à primeira vista. Tinha tudo para ser uma daqueles romances emocionantes tipo “Diário de uma paixão”, mas alguns detalhes deixaram muito a desejar.


Miklós é um jovem judeu que mal sobreviveu ao holocausto. Ainda convalescendo e com a notícia de que tem pouco tempo de vida, ele decide que quer se casar. Consegue o endereço de 117 sobreviventes judias e escreve cartas para elas, na esperança de encontrar uma esposa. Dentre as moças que respondem, está Lili, que está se recuperando num hospital com algumas amigas. As correspondências entre os jovens se tornam frequentes e eles logo percebem que sentem algo especial um pelo outro.

O aspecto mais interessante da narrativa, para mim, foram os sentimentos dos protagonistas. Não apenas o que sentem um pelo outro mas como se sentem como judeus após o fim da guerra. Como eles sofrem pelos amigos que não sobreviveram, como alguns se voltam contra a própria religião, como sonham com um futuro apesar de saber que não podem esquecer os horrores que viveram.

Mas este não é um livro sobre a guerra. As atrocidades da guerra são mencionadas de leve, mas nunca ofuscam a narrativa do romance. O foco aqui são duas pessoas que se apaixonam em circunstâncias incomuns.


Apesar da premissa interessante, parece que o livro não deslancha em momento algum. Os protagonistas têm pouco ou nenhum carisma, de forma que você não se importa com o que acontece com eles porque eles não são interessantes. O Miklós (meu deus, que criatura maçante) é um jovem pretensioso e até um pouco arrogante, que resolve que quer casar de qualquer jeito, apesar do prognóstico péssimo e como se casar fosse a única coisa relevante que uma pessoa pudesse fazer na vida. Dá um pouco de nervoso ver como ele esconde a própria doença, ignorando que a mulher que se apaixonar por ele pode não estar disposta a cuidar de um doente terminal. E a Lili, coitada, é uma songa monga desinteressante e sem nada de relevante pra dizer. Esses dois bem que se merecem.

Aí você pensa, “ah, mas os coadjuvantes devem ser bons, pra salvar a história”. Queria eu. Os amigos do casal se resumem a um cafajeste sem salvação, uma traíra (que não tem um motivo razoável pra fazer o que fez) e uma mocinha tão sem sal quanto a Lili. Além disso, o autor faz questão de ridicularizar as únicas duas moças gordas que aparecem na história, fazendo delas motivo de chacota entre os outros personagens. Tudo bem que a história se passa no século passado, mas ela foi escrita no ano passado e chamar uma pessoa gorda de “grotesca” é abusar um pouco da sua liberdade criativa.

No meio de tanta arrogância, tanto do autor quanto dos personagens, o livro perde uma ótima oportunidade de ser um romance edificante e lindo, se tornando só uma historinha chata sobre dois jovens imprudentes. Nenhum detalhe parece ter sido acrescentado pelo autor, como se ele não tivesse criado nada na história, só transcrito algumas cartas. No final, parece que o único detalhe interessante da trajetória do casal foi ter se conhecido por correspondência, o resto é história comum e sem graça como a de qualquer outro casal por aí.

Esse livro podia ter sido tanta coisa, podia ter sido tão lindo… Mas é só um livro que você torce pra acabar logo.

Obs.: Apesar de o livro ser de 2016, o filme é de 2015 (vai entender) e foi dirigido pelo próprio Péter Gárdos.
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29 janeiro, 2017


[Capas pelo Mundo] O Último Voo do Flamingo


Olá leitores do De Tudo um Pouquinho! Depois de um longo período sem a coluna Capas pelo Mundo, o retorno dessa coluna tão amada será com o livro O Último Voo do Flamingo, do autor moçambicano Mia Couto. Sou apaixonada por esse livro, li pela primeira vez em 2010 para o vestibular e foi uma grata surpresa. Algumas pessoas tem "aversão" aos livros que são cobrados em vestibular, mas seria interessante se pensarmos que são apenas livros e que nós tivemos a chance de conhecê-los por causa do vestibular. Bem melhor pensar assim e isso torna a leitura mais leve! É um livro belíssimo, poético e o autor faz uma crítica as nações que disseminam e financiam as guerras, que escolhem a miséria como a opção de melhora. Também é sobre reconstrução e esperança, vale muito a pena ler!
Mia Couto é um dos escritores africanos de maior destaque da atualidade. O último voo do flamingo, publicado originalmente em 2000, é seu quarto romance, e foi lançado quando Moçambique comemorava 25 anos de independência de Portugal. Depois de um longo tempo de guerra civil, soldados das Nações Unidas estão em Moçambique para acompanhar o processo de paz. O romance narra estranhos acontecimentos de uma pequena vila imaginária, Tizangara, ao sul do país, onde militares da ONU começam a explodir subitamente. O autor elabora uma crítica ácida aos semeadores da guerra e da miséria, mas também uma história em que poesia e esperança dependem da capacidade narrativa de contar a própria história com vozes africanas autênticas. Só elas sabem que o voo do flamingo faz o sol voltar a brilhar depois de um período de trevas e opressão.

                      
Quando foi publicado pela primeira vez aqui no Brasil, O Último Voo do Flamingo ganhou essa capa da direita. Em 2016 a Companhia das Letras relançou o livro com uma nova capa. A editora fez isso com alguns livros do autor.

Espanha e Finlândia 
Apesar da capa espanhola remeter a uma parte do livro, não me agradou.

França e Inglaterra
Duas capas de muito bom gosto! 

Moçambique e Suécia
Gostei muito da capa moçambicana e só mudaria a fonte e as cores utilizadas no nome do autor e do título da obra. 


Quatro capas portuguesas

Agora me contem nos comentários quais capas vocês mais gostaram. Até o próximo Capas pelo Mundo! 
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